
Foi numa tarde quente de Junho que te vi pela primeira vez, Leonor. Eu era a única prima que te podia ir conhecer ao hospital, tal como tinha feito com a tua irmã, e fui. Já não me lembro ao certo das tuas feições de recém-nascida, mas sei que imediatamente tive uma grande afeição por ti. Todas as semanas te pegava um bocadinho ao colo. As nossas mães sempre souberam o quanto eu queria, e lá te confiavam nos meus braços num qualquer sofá de casa da avó. Foste crescendo e fui continuando a acompanhar-te. Comias muitas vezes pela minha mão, enquanto cantava para ti ou te testava com as habituais perguntas infantis.
Os teus caracóis cresceram e quando corrias eles voavam ao sabor do vento. Gostava do teu sorriso genuíno, sabes? Dava-me alegria. Uma alegria que não tinha sentido até então e que penso que ainda não voltei a sentir.
Até que o teu pai fez quarenta anos. Lá fomos todos festejar, como tantas vezes fazemos. Mas tu não eras tu. Já de noite, ao colo da Rosinha no teu pijama beje, estavas pálida e molengona. Ninguém ligou muito, afinal qual de nós nunca tinha estado febril? Dois dias depois, faz hoje onze anos, soube que nos tinhas dito adeus. Disse-mo o meu pai quando me foi buscar à escola. E eu não te disse adeus. Não pude brincar contigo uma última vez nem dar-te o colo da despedida. Foste assim, de repente, depois da corrida infernal e vã que os teus pais tentaram ganhar e que afinal não passou de um frustrante falhanço.
Não foste sem uma homenagem à tua altura, já que todos te quiseram acompanhar. E eu, mesmo longe de tudo isso, sempre rezei por ti e me aconselhei, mesmo sendo tu tão pequena e inocente. Gosto de saber que não me esqueceste. Também eu todos os dias me lembro de ti e tenho curiosidade em conhecer a mulher que te ias tornar.
Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte...


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