
Há cerca de um ano fui eufemisticamente convidada a ler o “Memorial do Convento”. Nessa altura achei tal ideia terrível, uma vez que todos diziam Saramago ser intragável. Não pontuava. Nos primeiros tempos demorava meia hora por página, e adormecia compulsivamente. Que me interessavam as conversas entre El-Rei e o Padre? E os carrapatos na cama da rainha? Simplesmente não percebia. Não via a magia que aquelas páginas já amareladas pelo tempo me transmitiam.
Tudo quanto é explicado se nos torna mais fácil. E se muitas vezes a explicação pode acabar com a beleza das coisas, naquele caso apenas a aumentou.
Blimunda é a mulher pureza. A mulher visionária. A mulher crente. A mulher incondicionalmente apaixonada. Blimunda tem tudo o que gostava de ter. Blimunda é o que gostava de ser.
Quando as meninas brincavam às rainhas e princesas das histórias de encantar, eu brincava às meninas pobres, que vestiam mal e tinham dificuldades. Fazia-o quando ia para a cama e vestia o pior pijama que tinha, embora o mais quentinho. Era branco e tinha flores violeta. Um dia tinha acontecido um milagre: estava um chuvoso dia de Inverno, frio e naturalmente sombrio quando de repente o sol raiou e se teve um dia de Verão. A partir daí não mais tinha deixado de usar uma t-shirt por baixo de toda a roupa. Não passava da camisola interior, sem a qual a minha mãe não me deixava passar. Inocente e estúpido? Talvez. Mas posso orgulhar-me de que para mim, naquela altura, o Sol também tinha bailado como fez para os pastorinhos. Deve vir da minha recordação da infância a admiração por Blimunda.
Um dia ela encontrou Baltasar. Numa situação que nada abonava a favor de um início de romance. Mas eis que surge o amor. Surge do nada, como o verdadeiro amor deve surgir. O amor não precisa de palavras, conhecimento ou juras. O amor precisa do olhar, do coração, da adrenalina. Vive do desejo, da compreensão, da ilusão.
Surge com toda a gente, de forma mais ou menos intensa. Durando mais ou menos, é sempre único, é sempre diferente, é sempre o maior do mundo. Surgiu comigo. Não sei quando começou, não sei por quê. (Esqueci-me de um pormenor: também não tem por quê.) Não me lembro do primeiro dia em que o coração bateu mais depressa, na certeza de que nunca conhecerei o dia em que deixar de bater. Nesse dia terei morrido.
Ao longo do tempo aumentaram os batimentos cardíacos, as conversas, a necessidade primeiro de ver, depois de tocar…primeiro dá-se a mão, mais tarde o primeiro beijo, e outro, e outro. Aumenta o amor, aumenta o desejo, a vontade de estar cada vez mais próximo. Até ao dia da comunhão! Até ao dia em que finalmente nos sentimos um. Em que as lágrimas inundam os olhos, a boca fica seca, as mãos tremem, o coração parece que salta do peito. Somos uma bomba de alegria prestes a explodir. Apetece rir e chorar, calar e falar, tocar ou simplesmente apreciar. O que nos rodeia é mera realidade, não pertence ao mundo de ilusão em que nos encontramos. Não apetece dormir para apreciar o momento, apetece dormir para que o sonho tenha continuidade. Somos novos, mas como Blimunda…já então nos tornámos muito mais velhos.
A história repete-se. E volta a repetir-se. E ainda outra e outra vez. O desejo é maior, cada vez é melhor. Já não dá para viver sozinha. Comungámos. Somos um. Somos vítimas de uma relação de simbiose. Ou então eu sou.
O amor leva à posse, à loucura. O meu levou. Levou à destruição, à perda, à tristeza. Por idealizar a perfeição perdi tudo. A Lua passou a ficar encoberta pelas nuvens e muitas vezes elas se transformaram em água. Quando se transformavam ela voltava a ver-se. Antes de se transformarem…a Lua não existia, deixava de ser ela.
O Sol, por mais nuvens que tenha a encobri-lo continua a iluminar. Nunca perde a identidade, nunca deixa de ser ele. O Sol é resplandecente, sorri e ilumina. É sinónimo de alegria e de paz. Para mim é também sinónimo de perfeição e eternidade. Nada que tenha a ver com Ele é efémero.
Mas “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mudam-se as situações, mudam-se as acções.
E hoje, com um sentido diferente, vejo-me também obrigada a perguntar: Lua onde estás, Sol aonde vais?
A resposta não vem. Ou então eu não quero que venha.
(01/Março/2007 )

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