Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




sábado, 28 de junho de 2008

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Álvaro de Campos

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Paisagem de Chuva




Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia líquida me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade - àquela hora parecia que também indefinidamente.Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir.O som casual de um carro tardo, áspero a saltar nas pedras, crescia do fundo da rua, estralejou por debaixo da vidraça, apagava-se para o fundo da rua, para o fundo do vago sono que eu não conseguia de todo. Batia de quando em quando, uma porta de escada. Às vezes havia um chapinhar líquido de passos, um roçar por si mesmos de vestes molhadas. Uma ou outra vez, quando os passos eram mais, soava alto e atacavam. Depois, o silêncio volvia, com os passos que se apagavam, e a chuva continuava, inumeravelmente. Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela, eu só a ouvia. Nova, fluida, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que ia sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passam a ter lugar e dor na minha desolação.



in "O Livro do Desassossego", Bernardo Soares

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Porque "falhar" é o meu nome do meio...




Há dias, pessoas, sentimentos, frases, momentos, suposições, fragmentos do passado, memórias do futuro- sim, quero dizer memórias do futuro!-, que nos levam a uma retrospectiva incessante do papel que temos na peça que é a vida. O meu é insignificante. E por que não fechar a cortina sem a certeza de que o intervalo tenha tempo determinado?



"- Falhámos a vida, menino!

- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação."


in "Os Maias", Eça de Queirós
La Salet

segunda-feira, 23 de junho de 2008

É hora de alimentar a alma




Foi numa noite de “Bife Picado” que eu me senti como o bife: picada. Não que estivesse espapaçada. Senti-me antes com a alma moída.
Detesto que me façam sentir. Posso suportar que me façam pensar. Mas pensar no que sinto? Pensar no que não devia sentir? Pensar que sinto para além do que penso sentir? Pensar que sinto mais do que me sinto capaz de sentir? Dá-se o inevitável. Chega de mansinho a moleza do órgão vital. Vem pé ante pé esse sentimento de paz que se apropria de mim. Sim, paz! Transpiro harmonia, perdão, vontade, solidariedade. Desisto das minhas ideias revolucionárias e macabras. Deixei à porta da sala a capacidade de resistência. É em êxtase que ajo! É daquele “terraço sobre outra coisa ainda” que ligo para que possamos partilhar. Só partilhando faz sentido.



“Mas onde tudo morre tudo pode renascer


Em ti vejo o tempo que passou
vejo o sangue que correu
vejo a força que moveu
quando tudo parou em ti
a tempestade que não há em ti
arrastando para o teu lugar
e é em ti que vou ficar”




La Salet

domingo, 22 de junho de 2008

O lenço

O lenço que me ofertaste
Tinha um coração no meio
Quando ao nosso amor faltaste
Eu fui-me ao lenço e rasguei-o.

Henrique Rêgo

sábado, 21 de junho de 2008

Temos tempo!




Ligo os quatro piscas. Liga os quatro piscas. Ouço-a respirar com dificuldade. Estou mesmo com dificuldade em respirar. Tento acalmá-la lembrando-a das vezes que me berrou por conduzir depressa. Ele sempre conduziu depressa, sabe o que está a fazer. Está quase, aguenta só mais um pouco. Tenho de aguentar! Ainda ontem estávamos sentados no sofá a ver o filme do Roberto Benigni que ela tanto gosta. E agora estamos aqui. Ainda ontem o obriguei a rever o filme do Roberto Benigni e agora está a levar-me para o hospital. Ela neste estado e eu a sentir-me incapaz e culpado. Mas vamos ter tempo. Espero que tenhamos tempo! Ainda temos tanto por fazer. Ainda temos tanto por fazer. Falta-nos ter tempo para nós. Falta-nos recuperar aqueles anos que estivemos longe, aqueles dias que nos chateámos, as horas que não falámos, dizer o que não foi dito. Falta-nos tempo para nós. Falta-nos recuperar aqueles anos em que ele esteve tão longe, os dias que por minha culpa nos chateámos ou as horas que não falámos, dizer o que não foi dito. Não, foi tudo dito. Não, foi tudo dito.
- Amo-te!
- Amo-te!
A merda do semáforo está vermelho! Porra, o semáforo está vermelho! Vou ter de passar.
Mas ele vai passar…
-Cuidado!

Ela grita para que tenha cuidado mas o perigo já passou. O importante agora é a vida dela.
-Tem calma amor, temos tempo. Respira devagar, só mais um bocado.
Pede-me calma dizendo que temos tempo, como se fosse verdade. E pede que respire devagar, como se conseguisse.
Vai morrer. Vou morrer. Não consigo ir mais depressa e cada vez se sente pior. Sinto-me cada vez pior. Nunca falámos sobre a morte. Nunca falámos sobre a morte. Não sei se quer ser enterrada ou cremada. Acho que não sabe se quero ser enterrada ou cremada. Nem eu sei. Se for enterrada acho que vou todos os dias ter com ela. Se for cremada talvez possa plantar uma árvore e usar as cinzas, para que possa renascer. Podia cremar-me e plantar uma árvore. Porra, mas por que estou eu a pensar nisto agora? O que é que isto agora interessa? Não pode morrer. Não posso morrer. Tem de ver o nosso filho crescer e dar-me mais um, ou dois, ou três. Os que quiser. Tenho de ver o menino crescer e gostava de lhe dar mais um ou dois. Se ela viver faço tudo o que quiser. Sempre assim foi, não é? Sempre foi demasiado importante para mim. Ainda hoje não entendo, talvez me tenho enfeitiçado. Adorava que continuasse a fazer tudo por mim. Sempre foi assim. Acredito que sempre fui importante para ele, não percebo bem porquê. Parece que o enfeiticei. Mas será que só penso disparates? Travo a fundo. Trava a fundo. Esta foi por pouco, é no que dão estes pensamentos absurdos. Se calhar vai a pensar no mesmo que eu. Tenho de concentrar-me.
- Cuida do nosso filho.
Pede-me para cuidar do nosso filho. Parece-me que vai começar a chorar. Tenho vontade de chorar. Sempre me partiu o coração quando deitava uma lágrima e agora que está a morrer ainda chora? É de mais para mim. Não quero chorar porque sei que mexe com ele. Começo a entrar em desespero. Estou a desesperar! E o hospital que nunca mais aparece. E estes carros que não me saem da frente. E eu que estou a perder a minha mulher. Por que é que a esta hora todos tinham de sair de casa? Estou a morrer… Podem ser os últimos minutos que passamos juntos. E se forem os últimos minutos que passamos juntos? Não, não, não! Não! Temos ainda de acabar de ver o filme do Roberto Benigni. Ainda falta o filme do Benigni. Não é verdade que a vida seja bela. Afinal a vida não é bela. Só acreditei nisso até há quinze minutos atrás. Mas até há quinze minutos era. Nem em Deus acredito. Mentira, acredito! Não páro de lhe pedir que a salve. Acredito em Deus.
Vai salvar-me.
- És tão bonita!
Até num momento destes me diz que sou bonita. É para me animar. Nunca achou realmente. Esta lágrima que teima em cair. Também está com vontade de chorar. Como vou voltar a entrar em casa se ela lá não estiver? Se morrer hoje como é que vai conseguir voltar para casa? Não vou ter quem abraçar ou falar do meu dia. Já não vou estar ao fim do dia para o abraçar e ouvir (só metade) dos seus problemas. Não a vou ter para me dizer que deixei a roupa desarrumada ou a tampa da sanita levantada. Ao menos não tem quem o chateie com a roupa desarrumada ou a tampa da sanita! Mas também não tem quem a arrume como eu. E já não vai estar lá para implicar comigo só porque sim. Deixa de me ter a implicar só porque sim a toda a hora. Até disso terei saudades! Vai ter saudades, eu sei. E as churrascadas? E as churrascadas? Não, não vai haver. Se calhar não vai haver mais. Sem ela não faz sentido. E nem eu consigo tratar de tudo. Ele também não conseguiria tratar de tudo! Aguenta, por favor! Aguenta só mais um pouco! Tenho de aguentar! Precisamos de tempo para ver o menino crescer. Temos um filho para ver crescer. Para voltarmos a ficar acordados até tarde, mas para esperarmos que volte. Quero ter de esperar por ele quando começar a sair à noite! Sei que vai continuar a ser mãe galinha. Sim, a minha razão vai ser a mesma. Ele sempre foi mais galinha do que eu. Temos de ter tempo para jantarmos à luz das velas ou de tentar descobrir a estrela que lhe dei, para irmos dançar e para as noites de teatro que ela tanto gosta. Precisamos de tempo para jantar à luz das velas, descobrir a estrela a que deu o meu nome, dançar e ir ao teatro. Não vamos há tanto tempo. Faço tudo.
- Vou estar sempre contigo.
Diz que vai estar sempre comigo. Espero que o sempre não seja uns escassos minutos. O hospital! O hospital! Estão três ambulâncias à porta. Estão três ambulâncias à porta. Não consigo respirar! Parou de respirar. Acho que ficou inconsciente. Saio do carro e levo-a em braços para dentro. Estão dois enfermeiros e um médico.
- Ajudem-na!
Obrigam-me a sair. Por que é que não está ao pé de mim? Vou estacionar o carro. Se calhar foi estacionar o carro. Ninguém me dá notícias. Será que sabe como estou? Nem eu sei. Temos de ter tempo para fazer amor. Temos de ter tempo para fazer amor. Só espero não ter de lhe dizer adeus. Talvez não tenha de lhe dizer adeus.




La Salet

quarta-feira, 18 de junho de 2008

I was made for you

terça-feira, 17 de junho de 2008

Carta a...




És tu quem me conduz, és tu quem me alumia,
Para mim não desponta a aurora, não é dia,
Se não vejo os dois sóis azuis do teu olhar.
Deixei-te há pouco mais dum mês, – mês secular
E nessa noite imensa, ah, digo-te a verdade,
Iluminou-me sempre o luar da saudade.
E nesses montes nus por onde eu tenho andado,
Trágicos vagalhões dum mar petrificado,
Sempre adiante de mim dentre a aridez selvagem,
Vi como um lírio branco erguer-se a tua imagem.
Nunca te abandonei! Nunca me abandonaste!
És o sol e eu a sombra. És a flor e eu a haste.
Na hora em que parti meu coração deixei-o
Na urna virginal desse divino seio,
E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho
Dentro em meu peito, como uma rola em seu ninho!


Guerra Junqueiro, "Poesias Dispersas"