Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 28 de abril de 2009

Lua Azul


Numa ida clandestina a uma farmácia, o farmacêutico de serviço ofereceu-me uma caneta, que me perguntaram o que me lembrava. Ora, a simples esferográfica era, para os homens, isso mesmo. A nós, mulheres, lembrava um bocadinho de tudo. Víamos nela uma ampulheta e, consequentemente, uma mulher, uma seringa, um termómetro, uma cápsula, um cenário de fecundação e um joystick. Abandonei a forma e olhei para a cor: turquesa. Tal qual aquele colar de turquesas do Sri Lanka que eu tanto admirava quando era pequena. Fiquei feliz com aquele azul.
Um destes dias disseram-me que eu parecia o azul. Não sei se o azul caneta, aquele que me fez feliz, mas azul. Quando penso numa cor, imediatamente me remeto às aulas de educação visual em que as dávamos, tendo sempre o azul ciano à mão, já que era uma das cores primárias. Dividíamo-las em frias ou quentes e falávamos do seu significado. Não sei se sou primária, mas sei que se me juntar a outros como eu poderemos ser muito mais. E que conseguiremos ter a alegria de todas as cores do arco-íris. Sou fria? Quanto baste. Para quem merece. Quando merece.
Depois das aulas de educação visual lembro-me inevitavelmente do céu. Vemo-lo azul, mas não é azul. A sua cor depende da forma como a luz se espalha pela atmosfera. Também quem me vê azul, sabe que sê-lo depende da forma como a luz humana incide sobre mim. O segredo está, também, nas moléculas que andam por aí em suspensão e nas quais esbarro. A seguir vem o mar. O mar que vemos tem, ao longe, a minha cor. Quando nos aproximamos podemos ver que tem várias tonalidades e uma corrente que nem sempre é conivente com a pacificidade que imaginamos. Se lá entrarmos num dia em que está calmo, é fácil ver à transparência tudo o que faz parte dele. Se for num dia de rebelião é triste ver a facilidade com que se entra e a dificuldade com que se sai. E tantas vezes sem que o sangue corra.
Na natureza vamos tendo muito mais exemplos do que é o cárdeo. Há o mirtilo azul-violeta de que uns gostam e outros nem tanto porque lhes azeda a boca. Há os miosótis que se impõem na sua insignificância. Há a baleia azul que, na verdade, nem azul é. Há a safira que tanto brilha e ofusca tanta gente. O lápis lazúli que usam por superstição ou porque é um adorno que vale a pena mostrar. Há o azul dos pombos que vemos na rua e que por mais que os queiramos apanhar, acabam sempre por fugir. O azul do petróleo que usamos até à exaustão. O azul eléctrico que anda por aí a irritar-nos com a agressividade da sua tonalidade. O azul-bebé da ternura instigada pelo relógio biológico. O azul claro das sorridentes manhãs de primavera em que até os pássaros cantam o hino da alegria. O azul-marinho dos sonhos felizes.
Num dos meus sonhos azul-marinho dançava-se, lembrando Johann Strauss e envergando um longo vestido, o “An der schönen blauen Donau”, por nós conhecido como o “Danúbio azul”. A sala ostentava orquídeas marfim e vermelhas e no braçado vinham tulipas brancas. Mas isso só seria possível no castelo que fantasio, com os jardins de um verde tropical que eu criei e que mais ninguém vê. Numa noite de Lua Azul, entenda-se a improbabilidade.



Blue moon, you knew just what I was there for
You heard me sayin' a prayer for
Someone I really could care for

Google Analytics

Obrigada por me fazeres ver onde chego.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Não sei, não sei, não sei


Se há coisa que me chateia é o uso da expressão "não sei". E só o constatei há pouco tempo, embora seja coisa antiga. É uma das formas mais egoístas de agir que conheço, já que nos faz sempre estar dependente de uma resposta que às vezes nem vem por preguiça. Passo a falar de alguns "não sei" que passaram na minha vida.
Tinha um ex que sempre que lhe perguntava se queria ir a algum lado, com antecedência, nunca sabia. Normalmente até acabava por ir, mas aquela falta de certeza dava comigo em louca. Era daquelas coisas que me fazia perder a vontade de ir, e a vontade de posteriormente lhe fazer qualquer convite. E quantas vezes me chateei à custa disso. Mas não aprendeu. Tive de aprender eu com o tempo e, mais tarde, desistir.
Uma das minhas primas literalmente mói-me. Não sabe se ao lanche quer pão com queijo ou com manteiga, se há-de beber iogurte ou batido, se há-de usar a chávena dos meninos ou a da vaca. E nós (eu e a minha irmã) à espera. Quando vai às compras connosco somos nós que temos de escolher as peças que ela deve ver. Se precisa de sapatos não consegue saber de quais gosta mais, se precisa de uma camisola não sabe bem qual é a cor que deve levar, se precisa de calças não sabe se leva as mais escuras ou as mais claras. Um verdadeiro tormento!
Uma das minhas melhores amigas também padeceu há pouco tempo desse mal. Apaixonou-se quando achava que tal não seria possível e parou-lhe claramente o cérebro. Não sabia se o queria ver ou não, já não sabia se queria ir ter com os nossos amigos de sempre ou ir ao sítio onde ele estava, se havia de beber ou não, não fosse dizer-lhe algo errado. Outro martírio! Até ao dia em que depois de um dia muito cansativo houve um mal entendido, um "não sei" extremamente irritante, uma zanga das sérias e o "não sei" acabou.
Estas são as situações que realmente me irritam porque me disseram respeito. Mas não são as únicas. Irrita-me todo e qualquer tipo de indecisão que seja prejudicial para os outros. Vamos lá a ter respeito pelo sistema nervoso do próximo.

O Porto é maravilhoso...



"Sobretudo às vezes."


(Daniel Maia-Pinto Rodrigues)

Noites d'Orpheu


(Almada Negreiros)



Há aquelas noites em que temos imensos convites e não há vontade de aceitar nenhum. Foi o que aconteceu ontem. Entre aniversários, queima e festas temáticas lá tive de optar. Aniversário. Pouca vontade. Muito pouca, aliás. Mas não poderia faltar, não seria perdoada. E não me sentiria bem se não fosse. Entre umas febras no pão, minis e alguns doces lá passou uma parte da noite. E seguimos para o bar habitual.
Assim que o ponteiro se aproximou das duas, baixaram as luzes. O ruído diminuía e lá fomos saindo. Éramos seis a querer estar juntos. E a não querer ir para longe. "Por que não vamos para o coreto?" Fomos.
Arranjámos mantas ao xadrez, vodka preta, vinho tinto, cigarros, batatas fritas e livros. Houve espaço para o consultório sentimental habitual, para a revolução, ideologias, sonhos, distribuição de simbólicas rosas vermelhas, mãos que se queriam, olhares que se cruzavam, palavras que se apoiavam. Parecia uma nova geração d'Orpheu. Estiveram poetas franceses, Mário de Sá Carneiro, Nuno Júdice e, em pensamentos e citação David Mourão-Ferreira. E Florbela Espanca. Essa foi a grande presença. A que nos fez sentir, recitando.


Fanatismo



Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."


Florbela Espanca

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Adeus




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquina
sem esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.


Eugénio de Andrade



Um dos mais bonitos poemas da literatura portuguesa. Para mim, um dos mais sentidos. E um dos que faz mais sentido.

Carolina


E já que hoje estou numa de recordações e frases curtas, relembro a Carolina, que do alto da sabedoria dos seus treze anos me dizia:


Quem não quer quando pode, não pode quando quer.



(Hoje estou certa de que tinha razão.)

Overdose


Apanhei uma overdose de morangos.

Puberdade fora de horas





P. F. - Vinculamo-nos às réstias de lembranças das pessoas que estiveram presentes no processo.

T. F. - Mesmo. E isso não é bom, ficamos parvas. Pelo menos fazemos a outra rir.

P. F. - Oh filha e se não é agora quando vai ser? Se fosse em canalha não sei se teria o mesmo valor.

T. F. - Quando nos metermos com os amigos das nossas filhas. Brincadeirinha! Agora tem mais graça do que na altura que devia ser. É mais marcante.

P. F. - Talvez esta seja a altura certa. A nossa altura.

T. F. - Tardia, ainda assim. Também pode ser da Primavera. Talvez depois passe...

P. F. - Não é nada. E além disso os filhos agora saem com que idade de casa dos pais? Estamos adequadas à nossa era.

(pausa)

Mas pode ser das mimosas. É de tudo menos de nós. A culpa é de toda a gente, menos nossa.

Conversas de mesa #2


Em (nova) homenagem a longas noites.


Amor de pica sempre fica.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Apontamentos desinteressados


Há dois tipos de traições: as perdoáveis e as imperdoáveis. Tudo depende da nossa ordem de valores.

Não há fome que não dê em fartura.

Há uma altura na vida em que percebemos que o pensamento obtuso não é a receita da felicidade. Se soubermos aguardar pela hora certa, teremos a recompensa justa.

Quando erramos e a seguir acertamos, sabe ainda melhor.

Enquanto não nos conhecermos não vamos saber qual é a peça que falta.

O que nos pertence, a nós chegará. Seja quando o desejamos ardentemente ou quando já baixámos os braços. Vem sempre no momento certo. E a tempo.

O apontamento final tem de nos levar a olhar em frente.



Gigi - I'm the exception.
Alex - You're my exception.


in "He's just not that into you"

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Alegria

São 20.25 e da janela ainda vislumbro o dia.

Saltar barreiras




Depois de dois longos meses de seca, eis que a chuva voltou a cair. Foi pouca, mas a suficiente para purificar a alma. E como era necessária!
Agora voltei a arredar as nuvens, preciso de ver a luz. E mandei embora o nevoeiro, quero ver com clareza.
Não é altura de virar a cabeça para trás nem de entrecuzar o olhar. Muito menos é altura de estar disponível para o abraço. Ou de o desejar.
Esta é a prova final e, como tal, a mais dura. Só com esforço e coragem o resultado final será o pretendido. Tenho de conseguir saltar as barreiras, sem derrubar nenhuma. Qualquer falha me pode valer a desclassificação.




Há que limpar o restolho do que o tempo queimou.



Conversas de mesa


J.P. - Não achas que eras demasiado exigente?
La Salet - Acho. Mas só o era porque o patamar em que se encontrava era muito superior a qualquer outro e diferente de todos.
J.P. - Não faz sentido. É uma pessoa normal.
La Salet - É, mas não para mim.

terça-feira, 21 de abril de 2009

É já depois de amanhã!


Momentos que marcam

O primeiro e o último.


(É para ser lido assim, baixinho.)

Coisas da vida

Há coisas que me chateiam. Vivi uns meses em Coimbra, e numa das minhas regulares idas ao Porto tentaram assaltar-me. Normal, numa cidade onde tanto se fala da criminalidade.
Há mais de um ano e meio que vivo no Porto e nunca tive uma abordagem nesse sentido, talvez porque vivo numa zona calma e movimentada. Foi preciso voltar à pacata Coimbra para que me roubassem o porta-moedas. Sem dinheiro. É verdade. Mas com quase todos os documentos. Tive a sorte de ter deixado a carta de condução guardada à parte.
Tenho de vos agradecer, queridos bailarinos de kizomba, pela ida vã à loja do cidadão, pela outra ida com um familiar directo que pudesse testemunhar que eu efectivamente existia, pelas horas lá perdidas, pelas perdidas noutras instituições. E pelo incómodo que ainda me causam, só de pensar que ainda tenho de ir a lojas e livrarias pedir um novo cartão, que ainda não posso levantar dinheiro e que tenho de andar sempre prevenida. Já nem falo nas recordações de cinema, fotografias que por lá paravam, números de telefone deixados no comboio e coisas que tal. Sem mais, um muito obrigada.

Amigos (que podiam ser) do peito


Tenho um amigo que já namorou com uma amiga minha, já foi ex, voltou a namorar e agora nem sei em que pé a coisa está (lembram-se do problema geracional?), que numa conversa acerca de ciúmes lhe falou de medos. Disse ele: "eu não tenho medo dos meus inimigos, tenho medo é dos meus amigos". Parece estranho, eu sei, mas foi uma das frases mais sábias que ouvi até hoje.
Tenho andado a aperceber-me disso, seja porque acontece comigo ou com quem me é próximo. Quando se acaba um namoro e, sem que façamos por isso, temos alguma aproximação imediata, essa não vem dos desconhecidos ou até dos inimigos dele. Vem dos seus amigos. E dizem os homens quando se discute isso: "mas isso não são amigos". Poupem-me, sim? Companheiros de sempre, quase inseparáveis, visitas regulares, confidentes constantes, que estão presentes em todos os momentos importantes, se não são amigos são o quê? Meros companheiros? Então os homens que se dizem tão fiéis uns com os outros não sabem o que significa a palavra amizade? Pior. Normalmente não são capazes de ter uma conversa com o amigo e dizer-lhe o que aconteceu ou querem que aconteça. Fazem o que têm a fazer e calam-se. Divertem-se e se ninguém souber nem se chateiam. E as cínicas somos nós?
Este assunto trancende-me. Por mais que me dedique a ele não consigo encontrar uma resposta que me satisfaça. É um simples interesse por ela? Se é, por que não o demonstraram antes? É cobiça pela propriedade alheia? Isso é demasiado feio. São elas que se tornam um alvo mais atraente por imaginarem que estão fragilizadas? Olhem que nem sempre é assim, meninos. Podem ter até mais repulsa em relação ao vosso sexo. Ou será simplesmente por terem voltado ao meio dos solteiros e tudo o que é novidade vos atrai? Não me parece uma boa resposta.
Deixem de seguir este caminho, que para além de não ser correcto, não abona nada a vosso favor. Há tantas raparigas livres e interessantes por aí, por que não procuram um bocadinho mais? Não se esqueçam que um dia serão vocês no papel do ex e não gostarão dele. Custa sempre saber que se tem um amigo assim. Mesmo que depois esqueçam isso e fique tudo bem, a pedra continua no sapato.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Abraça-me telepaticamente porque eu ainda não te larguei.

Mundo de encantar


Há sete anos tornámo-nos mulheres, éramos sete e tínhamos segredos. Éramos princesas tatuadas, vivíamos sob a guarda do pequeno sultão e durante mil e uma noites ouvimos e criámos mil e uma histórias. Rodopiámos no escuro com as mãos iluminadas. E no abraço final a luz que saía das mãos trespassou o peito.



Um mundo ideal
É um privilégio ver daqui

Um comboio passa só uma vez?


No tempo real em que vivemos, nós, animais pós-animalescos, sabemos o que significa uma viagem de comboio. Há comboios velhos e novos. Comboios confortáveis e desconfortáveis. Como nós, os nossos pais e avós já viajaram de comboio. Acomodaram-se numa determinada carruagem, em cada viagem que fizeram, e hoje contam-nos algumas delas. Umas estão presentes, outras nem por isso. Há aquelas em que correram perigo e nos tentam alertar para que não o corramos. Há as outras em que riram sem parar e a que se referem como as mais divertidas. Há as dos dias de chuva em que se moviam num ambiente sujo que cheirava a ontem. Há as que ocorreram sem sobressaltos, até chegarem à estação de destino e se perderem. Há as que ocorreram com sobressaltos até ao destino e que quando lá chegaram não se perderam no meio da multidão. Em todas, sem excepção, tiveram quem lhes picasse o bilhete testemunhando que fizeram aquela viagem.
Quando estamos numa estação ferroviária vemos passar vários comboios, mas apenas nos metemos naquele que queremos apanhar. Os de mercadorias passam a baixa velocidade, para que tenhamos tempo de pensar se é neles que queremos entrar, misturando-nos com os objectos standardizados e embalados que circulam ordenadamente dispostos, prontos a serem escolhidos por quem os quer comprar. Os urbanos passam a uma velocidade moderada, levando-nos quase sempre à rotina a que não queremos chegar depressa. Os turísticos levam-nos em velocidade de cruzeiro para que possamos aproveitar cada segundo de alegria. Os de alta velocidade apenas nos querem fazer mudar de vida em pouco tempo, não nos dando sequer tempo para pensar. Em cada dia que precisamos de organizar uma viagem temos de ser nós a escolher o mais conveniente.
Conhecemos ainda comboios que nos levam às montanhas, tendo de abandonar a linha recta que consideramos normal para subir e descer, correndo o risco de reagir mal à mudança de altitude. Há os comboios que passam no campo, nos inspiram calma, fazem respirar e até suspirar. Há os que passam perto do mar e nos fazem ver que o mar conhece a serenidade nos dias bons e se revolta em dias de tempestade. Há os citadinos que nos intoxicam com a poluição do ar. Há os que nos fazem atravessar fronteiras em busca do sonho pretendido. Há os que nos levam mesmo até à fronteira e nos obrigam a passá-la de uma forma diferente, à nossa responsabilidade. E há ainda os que unem duas margens, atravessando pontes de tamanho e largura variáveis.
Todos eles têm particularidades comuns que os fazem receber o nome de comboio. Todos têm um maquinista que o dirige, carris sobre os quais têm de seguir – se descarrilarem vão precisar de algum esforço para voltar ao normal-, espaço para andar à vontade, zonas de acomodamento de carga, portas por onde se pode entrar ou sair, um apito ensurdecedor que funciona em alturas de perigo, um sítio mais ou menos firme para nos segurarmos em alturas de desequilíbrio, um ponto de partida e um ponto de chegada. E todos eles fazem viagem de ida e volta. Quando fazem apenas de ida alguma tragédia aconteceu no percurso.
Depende de nós, passageiros, comprar o bilhete certo, pagando mais ou menos por isso. Compete-nos decidir qual o que queremos apanhar e qual a carruagem em que devemos entrar. Depende de nós não ficar só no cais a vê-los passar sem ter coragem de um dia viajar. Compete-nos estender o bilhete ao pica para que fique marcado. E compete-nos sobretudo não nos atrasarmos. O comboio parte na hora certa, depende de nós apanhá-lo ou não. Talvez o próximo passe tarde de mais.

domingo, 19 de abril de 2009

Clube das reincidentes




Começo a achar que cada geração segue um padrão sentimental. No consultório sentimental a que me dirijo uma vez por mês (leia-se jantar feminino) parece que quase todas padecemos do mesmo mal. O acaba e começa. Não somos aquele grupo em que a toda a hora aparecemos com uma nova e picante história de amor. Somos o grupo em que a qualquer hora podemos voltar com um reincidente e normalmente picante caso amoroso.
Já há muito que não se ouve a pergunta "mas quem é ele?". Todas nós sabemos quem é, como é, como age e por que o faz. E pelo menos uma vez por mês lá estamos nós para contar a nova crise ou a nova reconciliação. Ou lá aparecem eles para mostrar que desta vez está tudo bem.
Mas agora as reconciliações andam a mudar. Este ano passou por cá um vento frio que nos arrefeceu e enrijeceu. Parece que andamos a ganhar coragem para seguir em frente, numa direcção nova e quase desconhecida. Atingimos o nosso ponte de saturação e passámos a dar-nos ainda mais valor. Afinal nós estamos cá sempre umas para as outras. Eles vão e vêm. Ou simplesmente vão.




That's the thing about needs. Sometimes when you get them met, you don't need them anymore.

Carrie, in "Sex and the City"

sexta-feira, 17 de abril de 2009


Esta mesma rapariga, entenda as mulheres quem puder, que é a mais bonita de todas as que aqui se encontram, a de corpo mais bem feito, a mais atraente, a que todos passaram a desejar quando correu a voz do que valia, foi afinal, uma noite destas, meter-se por sua própria vontade na cama do velho da venda preta, que a recebeu como chuva de Verão e cumpriu o melhor que podia, bastante bem para a idade, ficando por esta via demonstrado, mais uma vez, que as aparências são enganadoras, e que não é pelo aspecto da cara e pela presteza do corpo que se conhece a força do coração.


José Saramago, in "Ensaio sobre a cegueira"

É que não há paciência!


Já estou farta dos que aqui passam, me lêem e depois fingem que se lembram, sem ajuda, de datas importantes. Cansei-me daqueles a quem damos uma mão e querem logo o braço. Não suporto os que não percebem que já chegou a hora de meterem o rabinho entre as pernas e seguirem o seu caminho. Começo a perder a vontade de falar com quem se dirige a mim inconscientemente. Já não posso ouvir as bocas arrogantes do que só tem moral para estar caladinho e nem sabe o que isso significa. Deixei de suportar os sorrisos amarelos do amigo faz-de-conta.
O meu signo bem me dizia que hoje Marte e Plutão (ou lá quem era) iam estar em guerra. Haja alguém que os separe. É que não há paciência!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Coisas sem nome

Temos de arranjar um museu aqui perto, nem que seja feito de erva e árvores! Vamos arranjar bicicletas? E uma máquina daquelas em que as fotografias são os momentos. Uma por cada história inventada. Venham os sonhos, o choro da chuva, o riso de sentir.
É nesta altura que sabemos o que bate cá dentro. E somos tanta coisa sem nome...
(Chegou hoje.)

O primo afastado da Maria Fernanda


Uma noite destas, numa partilha de todos os tipos de experiências, depois de dissertar acerca do meridiano de Greenwich fui convidada a aprender a regar um bonsai. Mais do que de água, acredito que as plantas precisam de amor. E foi o que fiz, reguei-a com todo o amor que naquele estado me foi possível. Houve quem me apreciasse e mais tarde, quando o sol já nascia, tivesse opinado sarcasticamente acerca da vida do pobre bonsai. E não é que tinha razão?
O chinesinho já foi motivo de muito riso desde então. Num dia em que a A. estava triste disse-lhe que o bonsai tinha morrido. E ela soltou uma gargalhada.
Obrigada, querido!


(Sim, parece que este post não faz sentido. Mas para quem sabe faz.)


Alto ego

Acabam de me dizer que sou igualzinha à Patrícia França. Impressionante, disseram. É mentira, mas o dia está ganho!

(Ainda me lembro quando ela era a namorada do Adelmo, eu tinha dez ou onze anos e a invejava por isso.)

Posso falar contigo?

- La Salet posso falar contigo?
- Depois.
- Depois?
- Sim, depois.
Assim mesmo. Com toda a dureza que a escrita trespassa. Ou talvez mais, já que os olhos também falaram. Não há espaço nem tempo para quem me desilude. Não há vontade para quem se mete na minha vida e se torna a preferência de outrém. Fiquem os dois. Afinal cometeram o mesmo erro e já perderam a vossa vez. Bendita emancipação.

Amor de trapos




Hoje é dia de rasgar um pedacinho das calças e fazer um anel à medida do dedo, pondo nele todo o amor do mundo. Mas como o anel é de pano e se desfaz com o passar do tempo, também o amor se vai rasgando. No fim ficam os trapos, réstias de um passado eterno e feliz, que depois de tantas lavagens conhece finalmente o fundo da prateleira não mais usada do coração. Fica a alegria dos momentos vividos e a tristeza da não repetição. Fica a saudade do futuro e a certeza de que mesmo que o futuro o fosse realmente, já não seria igual ao futuro do passado.
No fim fica o fon-fon-fon das frias noites de calor e a clandestinidade que experimentávamos dentro de nós próprios naquela estrada (quase) sem saída por que enveredávamos à procura de coisa nenhuma. Ficam os dias em que acordamos sem saber em que nos tornámos, na certeza de que diferimos do projecto arquitectónico que encomendámos ao arquitecto das obras feitas. E o contrato empresario-sentimental que fizemos com o empresário da massa falida. Fica a vontade adormecida, ao estilo das histórias de encantar, de arregaçar as mangas sem ter vontade de olhar para o lado.
No fim resta a certeza que estamos num tabuleiro de jogo em que nos encontramos sempre numa casa ali ao lado desse alguém que não é quem deve ser. Chegamos à conclusão que o teu mal não me faz bem, o teu bem não me faz mal, mas que o teu bem me faz bem e o teu mal o meu mal faz. E chego, aqui já falo na primeira pessoa, à conclusão de que afinal eu própria não sei falar de amor.




Agora sim damos a volta a isto
Agora sim há pernas para andar
Agora sim eu sinto o optimismo
Vamos em frente ninguém nos vai parar

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Na altura certa sabe bem...

Não vale a pena dizer que estou aqui para o que der e vier, pois não? Nem que, ainda que entenda por que é que isto está a acontecer, vou esperar o tempo que for preciso por notícias tuas, pois não? Só espero que estejas bem...

Intensidade

Parecendo impossível ainda tenho o teu cheiro.

(Com ou) Sem abrigo


Já passa da meia-noite e as mensagens continuam. Mais nada. Rigorosamente mais n-a-d-a! Não há vontade ou não há coragem? Respondido. Não houve coragem. Mas agora já há. E aí vou eu debaixo de uma chuva torrencial. E lá estás tu, debaixo da mesma chuva. E aqui estamos nós, sem abrigo, mas abrigados. Já não há receios nem necessidade de disfarce. Só temos de voltar.


Quem me dera saber