Hoje é dia de rasgar um pedacinho das calças e fazer um anel à medida do dedo, pondo nele todo o amor do mundo. Mas como o anel é de pano e se desfaz com o passar do tempo, também o amor se vai rasgando. No fim ficam os trapos, réstias de um passado eterno e feliz, que depois de tantas lavagens conhece finalmente o fundo da prateleira não mais usada do coração. Fica a alegria dos momentos vividos e a tristeza da não repetição. Fica a saudade do futuro e a certeza de que mesmo que o futuro o fosse realmente, já não seria igual ao futuro do passado.
No fim fica o fon-fon-fon das frias noites de calor e a clandestinidade que experimentávamos dentro de nós próprios naquela estrada (quase) sem saída por que enveredávamos à procura de coisa nenhuma. Ficam os dias em que acordamos sem saber em que nos tornámos, na certeza de que diferimos do projecto arquitectónico que encomendámos ao arquitecto das obras feitas. E o contrato empresario-sentimental que fizemos com o empresário da massa falida. Fica a vontade adormecida, ao estilo das histórias de encantar, de arregaçar as mangas sem ter vontade de olhar para o lado.
No fim resta a certeza que estamos num tabuleiro de jogo em que nos encontramos sempre numa casa ali ao lado desse alguém que não é quem deve ser. Chegamos à conclusão que o teu mal não me faz bem, o teu bem não me faz mal, mas que o teu bem me faz bem e o teu mal o meu mal faz. E chego, aqui já falo na primeira pessoa, à conclusão de que afinal eu própria não sei falar de amor.
Agora sim damos a volta a isto
Agora sim há pernas para andar
Agora sim eu sinto o optimismo
Vamos em frente ninguém nos vai parar

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