Pois é, A., também eu um dia acreditei que havia histórias de vida diferentes. Acreditei em valores irrefutáveis, em prioridades de vida definidas e erros ultrapassáveis, fases de enamoramento eterno e e lealdade no papel principal. Hoje sei que o mundo não é o sonhado. Não passamos de animais com tanto de racional como de irracional, com segredos obscuros, orgulho ferido, sentimentos recalcados e desejos tão secretos quanto a individualidade nos permite.
Hoje sei que eu, tu e o mundo somos iguais. Que há histórias irrepetíveis, mas que não há histórias perfeitas. Nem as de sucesso.
Ainda recordo o dia em que nos encontrámos naquelas catacumbas sombrias. A partir daí, nada mais foi igual.
Num destes dias decidi que a minha vida ia mudar. Já dei os primeiros passos nesta caminhada que se avizinha longa. E não poderia estar a correr melhor!
terça-feira, 27 de abril de 2010
A Lulu quer o que quer qualquer mulher Que o amigo a trate bem E que a faça rir também
Branca é a luz das imperfeições
que nos apontam no embaraço.
É a frase que não se lê,
a folha produtiva,
a esperança prometida.
É um sem número de sensações
no número restrito da capacidade de sentir.
Branco é a amizade enraizada
no tempo dos amores eternos.
O calor das cores frias,
o conforto da simplicidade
de longos Invernos.
São noite iguais aos dias.
Tardes diferentes na semelhança.
Lusco-fuscos de verdade.
Branco é o espaço vazio
do tempo adverso
que nos acolhe como lar.
A ocupação do Outono
com vontade de ficar.
É a prima que não vem
na fugacidade dos momentos coloridos.
O cheiro que não chega
na absorção dos sentidos perdidos.
É branca a cor da saudade
que transporto no peito,
inspirou-se na tela que ainda não pintaste.
Sabe que um dia morrerá
afogada na profundidade das recordações
que construímos em uníssono.
Gritará como quem não quer arder
quando a lançares ao relento
num gesto lento
lento
lento
De quem se esqueceu de esquecer
e esqueceu de lembrar
e lembrou de perder
num sopro do vento
Ontem as tuas pernas, já fracas, cederam sobre a minha cama. Queixavas-te da dor que se associava à falta de sensibilidade, numa mistura explosiva. E ias cerrando os olhos de mansinho. Tive medo da visão que me deste. Enquanto te massajava sabia que não podias partir. Tu não.
Quando se pensa em paixão, pensa-se automaticamente em beijar. No entanto, eu não penso. Eu penso em dar a mão, que não há nada que mostre maior sentimento do que esse gesto. Ainda me lembro das primeiras vezes que dei a mão por gostar. Do alto da minha puberdade apaixonei-me pelo improvável e ainda hoje recordo a intensidade do primeiro momento em que os dedos se tocaram. O coração queria saltar do peito, o sorriso teimava em aparecer e o olhar fazia a cabeça tombar timidamente. Era uma adrenalina que se apoderava do corpo!
Dar a mão tem uma técnica que vai muito além de agarrar na mão do outro. É dar o jeito certo, acariciar com perícia e pôr toda a emoção numa aperto esporádico. Claro que nem todos os sabem fazer. E, naturalmente, muitos desconhecem até a sua importância.
Em conversa com uma amiga, digo muitas vezes que ter o corpo não é a grande batalha. A batalha é dar a mão e ser capaz de tocar cá dentro. Isso sim, é difícil. A mão não se dá ocasionalmente em situações passageiras, entrega-se junto com a alma, numa partilha enamorada. E não é bonito ver um casal na rua (ou ser metade dele) a passear unido pela mais significante parte do corpo humano? É que casais a beijarem-se numa esquina vemos nós em todo o lado, numa procura carnal exasperada. Agora casais que partilham a mão como quem partilha o coração são raros.
Talvez um dia alguém tenha pensado como eu, quando viu no matrimónio uma partilha de vida. Se não, ainda me hão-de explicar o porquê da aliança em detrimento do alfinete de peito usado do lado esquerdo. Afinal podia usar-se sempre, que não temos o hábito de andar por aí nus. E podia ter um significado mais coerente, que nos iríamos picar de vez em quando, como o amor nos faz ao coração. E quantas vezes sangra! Mas escolheram bem. Faz bem à vista uma mão a luzir. E há quem diga que também ao ego.
Por isso apelo à exclusividade. Beijem, abracem, acariciem,encostem a uma parede ou abram os lençóis. Mas a mão dêem junto com o coração. Só assim poderão saborear o amor e saber que vale a pena.
E nas despedidas, qual é a última coisa que se larga?
Fazem-se muitas amizades por aí. Umas melhores, outras piores. Umas que duram mais, outras que duram menos. Outras em que o afastamento é inevitável. E são essas que tantas vezes nos levam a perceber a força que o sentimento pode ter. Porque depois de semanas, meses ou até anos sem nos vermos, quando nos reencontramos parece que não passou tempo nenhum. A confiança é a mesma e a alegria que se partilha não muda. As recordações são sempre as melhores, as confidências sucedem-se com uma naturalidade que nem nós sabíamos existir e vem daí a vontade de nos vermos mais e mais vezes. Nem sempre as novas vidas nos permitem tal periodicidade. Ainda assim, sabemos que da próxima vez saberá ainda melhor.
Há duas coisas que me inspiram sempre: a noite e certas músicas. Um dia escrevo sobre isso.
Maria Ana nasceu numa ilha pequena, entre o campo e o mar, numa tarde de Outono. Cresceu a brincar com os dois irmãos num seio de gargalhadas e laços de afecto. Tornou-se mulher ainda cedo, enquanto lia entre o sol e a chuva. No Verão bronzeava-se sobre a areia preta, enquanto se iam confundindo e mergulhava nas ondas de que tanto gostava.
Do alto da sua juventude entrou para a faculdade, seguindo o exemplo materno e a paixão por crianças. Divertiu-se com as amigas durante as férias de verão. Passeou, viajou de barco e conheceu um marinheiro que pensou que a pudesse levar a bom porto. Não levou, ainda que lhe deixasse as recordações escaldantes com um homem de farda, que qualquer mulher gostaria de ter. Pouco depois, meia dúzia engenheiros voaram até à ilha. Por lá ficaram, numa república mundana que lhes mudou a vida. Conheceram as meninas da terra, que enlouqueceram por eles e lhes atenuavam as noites de solidão. Maria Ana envolveu-se com António e Inês com Carlos. Entre Inês e Carlos tudo corria às mil maravilhas, para gáudio dela. Já António não tinha para com Maria Ana as mesmas atenções nem pretensões.
Foi então que Maria Ana não conseguiu evitar uma gravidez. António entrou em pânico, não sabendo como contar aos pais, pessoas tradicionais e de mente pouco aberta. Não havia outra solução para um rapaz de boas famílias que não o casamento. E assim foi. Numa manhã sombria, subiram ao altar da capela de Nossa Senhora do Socorro, sob o olhar atento de todos os convidados. Foram poucos os sorrisos que se rasgaram para as fotografias e pouca a alegria que se conheceu por aquelas bandas.
Foram começar a vida num novo sítio. O filho nasceu e nesse dia conheceu a nova cunhada, que se viria a revelar uma companheira de tantas horas. O bebé tornou-se numa linda criança de olhos azuis e eis que chega a menina. Está assim concretizado o sonho de quaisquer pais: um casalinho. Mas Maria Ana sentia-se cada vez mais só naquela terra longínqua que a acolheu bem mas não lhe trouxe a família para perto. E António continuava a ser amado como dantes sem conseguir retribuir tamanha dedicação. Vieram discussões, cenas de ciúmes e ameaças. E António de mãos e pés atados, que quem não sente pode dedicar-se, mas não pode dar o que não tem.
Os anos passaram, os filhos cresceram e o casamento continuou igual ao namoro. Maria Ana agarrou-se às crianças como só uma mãe infeliz pode fazer, proporcionando-lhes tudo o que podia e não podia, enquanto definhava na amargura que transportava no coração.
Os filhos começavam a aperceber-se do que se passava dentro de casa. E o filho, pré-adolescente com crises existenciais, revoltava-se com o mundo. Mundo esse que abrangia em muito o lar. Um dia, Maria Ana decidiu que tinha de mudar de vida. Desconfiava que estava a ser trocada e tentou ir para longe de casa. Pouco tempo depois, discutiu com o primeiro rebento. No dia seguinte levantou-se como sempre para levar os filhos à escola, dar aulas, ir buscar os filhos e ajudá-los nos trabalhos de casa. Fez o jantar e deixou-o na mesa. Depois disso, Maria Ana decidiu partir.
Jota, o filho, soube que a mãe o tinha abandonado naquela fase difícil e pontapeou um cesto de roupa. Mia, a filha, soube que tinha uma estrelinha no céu a brilhar por ela. E assim, Maria Ana teve na morte a atenção que sempre pediu em vida.
Quem tem a habilidade de sonhar, tem a capacidade de se desiludir. Muitas vezes alimentei ilusões na minha cabeça. Umas tornei reais, outras não. Houve as que me desiludiram à partida, as de que me cansei com o tempo, as que se confirmaram e as que se revelaram boas surpresas. Mas nisto das ilusões, é sempre melhor que não passem disso mesmo, para alimentar o bichinho que mora cá dentro. Com o tempo, tenho aprendido a não criar expectativas. Expectativas elevadas são expectativas falhadas. Tenho muitos horizontes sonhados que sei que nunca quero atravessar, guardando-os na caixa onde deixo a imaginação. E assim, a vida sabe tão bem!
Que eu sou uma saudosista nata já é do conhecimento geral. Agora, o que ninguém sabe é que não tenho saudade apenas dos momentos de felicidade máxima. Até agora, sempre consegui encontrar um pedacinho de felicidade no meio de uma tristeza absoluta. E é esse pedacinho que recordo com uma ternura só descrita nos livros infantis, entre páginas de letras grandes, desenhos simples, narrações que não suscitam dúvidas e que com o tempo conseguimos ler até nas entrelinhas. É uma viagem numa estrada curta e solarenga, num fim de tarde de Verão, com uma banda sonora de filme e personagens tão livres quanto a sua pequenez permite. É um piquenique numa toalha ao xadrez, com um chapéu de palha na cabeça, amoras apanhadas e desfeitas na boca, mãos rosadas e com melaço e beijos roubados à socapa entre arbustos. Ou uma noite de contagem de estrelas cadentes, com desejos que jamais se revelam, numa cadeira branca no terraço ou apenas de corpo estendido na estrada, com roupas leves como o vento fraco e olhar de diamante. É o som das cigarras e dos grilos, o riso ofegante de uma criança, o chapinhar na água, o eco na montanha e o andar de baloiço até doerem as mãos enferrujadas.
Depois da tempestade vem a bonança, diz-se por aí. Depois de dias de ideias fervilhantes, nós cerebrais, dúvidas, dúvidas e mais dúvidas, eis que um dia tudo acalma. Já consigo pensar a frio, usando toda a consciência que achei ter perdido numa esquina que dobrei. Não me tornei inatingível, apenas mais fria. E a frieza é uma arma que não nos leva à cadeia, mesmo que um dia nos prenda.
Hoje sei que nada vai mudar se eu não fizer por isso. Não mudo ninguém. Aprendo a lidar com a diferença, enquanto a minha escolha for essa. Se num laivo impulsivamente pensado mudar de ideias, saberei lidar com isso. O que não nos mata torna-nos mais fortes, aprendi à cabeçada.
There's no combination of words
I could put on the back of a postcard
No song that I could sing
But I can try for your heart,
our dreams, and they are made out of real things
like a shoebox of photographs
with sepia-toned loving
Love is the answer
at least for most of the questions in my heart, like
Why are we here? And where do we go?
And how come it's so hard?
It's not always easy and
sometimes life can be deceiving
I'll tell you one thing, it's always better when we're together
Mmmm, It's always better when we're together
Yeah we'll look at the stars and we're together
Well, it's always better when we're together
Yeah it's always better when we're together
And all of these moments
just might find their way into my dreams tonight,
But I know that they’ll be gone
when the morning light sings
and brings new things
for tomorrow night you see
that they’ll be gone too,
too many things I have to do
But if all of these dreams might find their way
into my day to day scene
I'd be under the impression
i was somewhere in between
With only two,
Just me and you,
Not so many things we got to do
or places we got to be
We'll sit beneath the mango tree, now,
Yeah It's always better when we're together
Mmmm, we're somewhere in between together
Well, it's always better when we're together
Yeah, it's always better when we're together
[MmmMmmmmMmm, Mmm MMmmM]
I believe in memories
they look so, so pretty when I sleep
Hey now, and when I wake up,
you look so pretty sleeping next to me
But there is not enough time,
There is no, no song I could sing
and there is no combination of words I could say
but I will still tell you one thing
We're Better together
Sim, Lorcas é tudo verdade. Durante muitos anos foi fácil sentir-me feliz, mesmo quando questões sérias me atormentavam. Agora tudo mudou, sem que te apercebesses. Eu sei que andaste absorvido pela tua vida, como já tantas vezes andei. Quando há muito que fazer e em que pensar temos um certa habilidade para descuidarmos quem amamos.
Eu sei que nem sequer perguntaste, mas já que estamos aqui os dois sentados, aproveito para partilhar um pouco contigo. Afinal sempre soubeste tão bem ouvir-me. É pena que tantas vezes tenhas desaparecido logo a seguir, mas não deixaste de me ajudar com uma simples conversa. E acho que já to disse, as pessoas que estiveram nos momentos importantes não se esquecem nunca, mesmo que um dia pertençam apenas ao passado. Ali, naquela canto da eternidade, elas permanecem imutáveis e embalsamadas no patamar que construiram.
Já sabes o básico, sei que tens tido notícias. Tenho vindo a pensar que Deus afinal faz mesmo justiça, não é? A minha irmã diz que justiça não é isto, que assim sofrem sempre os mesmos. Eu cá acredito que pode ser. Afinal para quem gosta tanto de viver, ver a vida a escapar-lhe entre os dedos desta forma, se não é castigo é o quê? Mas as notícias recentes dizem que a situação está realmente má. Parece que está a alastrar. E eu que não consigo ter dó. Será que me consegues entender ou vais apenas julgar-me? Falo-te de coração aberto, sabes bem que só tu e a Gi me ouvem desta forma tão grotesca e tão pouco humana.
Quanto à outra preocupação (eu sempre disse que os homens só dão preocupações, lembras-te?), tudo continua igual. Ou pior, sei lá eu. Para mim é sempre pior, que eu nunca tive grande habilidade para me habituar ao que quer que fosse. Sabes bem que uma mágoa pequena que nasça no meu peito e vá sendo alimentada com pequenos actos tão semelhantes entre si, tem tendência a transformar-me numa bomba prestes a explodir, capaz de lançar os maiores impropérios que se têm ouvido.
E então, fala-me de ti. É que eu parece que engoli uma grafonola. Quando entro no modo on é complicado desligarem-me o botão. E pronto, já que esta conversa nos levou duas vezes ao mesmo sítio (esse paraíso de que falam), não penses que não me sinto mal por pensar o que penso. Martirizo-me todos os dias. Eu que me considerava uma pessoa de valores, parece que os perdi todos quando decidi mostrar-te há três anos a raiva que ia aqui dentro. No dia em que pus a cassete a tocar, ela não parou mais. Poderias, sem eu ver, tirar-me a fita como quem não quer a coisa? Como eu dizia, também eu queria ir lá ter. Não que quisesse a sua companhia, dizem que aquilo é grande. Mas parece-me que lá tudo funcionaria melhor. Isto aqui não anda a correr nada bem, os alertas não são mais do que casualidades, uma simples frase transforma-se num impropério, um simples carinho toma vida própria de diabo e ergue o tridente, uma questão é quase sempre vista como impertinente e inoportuna. Já não sou vista com o respeito de outrora, com a estima que cultivei, com a energia que perdi, nem sequer com a vontade que parece que fiz desvanecer-se. Já pouco faz sentido e a solidão começa a assustar-me mais de dia para dia. Não é porque quero, bem sabes. E não gosto de desculpar-me com os outros, mas não é culpa minha.
Vá Lorcas, acabaram-se as lamentações. Fala-me mesmo de ti, quero saber o que corre nessas veias, o que vai nessa alma. Mas diz-me só, antes disso... Ainda me sentes?
Num laivo de dor dilacerante tentei chegar a ti, numa noite pouco estrelada com raios de luz a trespassar as nuvens. Se consegui ou não, só Abril dirá.
Um dia, lá longe, não estalarei os dedos enquanto penso "eu bem te avisei". Um dia, lá longe apenas sorrirei com ternura. Afinal eu já sabia que ia ser assim. Só vocês é que não.
Eu já fui santinha e ingénua. Já acreditei em muita gente, mesmo que não percebessem que acreditava. Entretanto aprendi que estar de pé atrás nunca fez mal a ninguém. Cresci com os pontapés que levei da vida e passei a vivê-la ao dia, pouco pensando no futuro. Diverti-me muito à custa disso. Cometi loucuras que me souberam bem sem uma ponta de remorso. E fez-me bem ao corpo e à alma. Oh se fez!
As relações podem ser para a vida, temos aqui os exemplos. Mas há uma coisa que é essencial: a troca de ideias. Há uma altura em que um acha que tem razão, o outro também acha e há necessidade de haver um confronto. No entanto, há algo muito simples que pode fazer que pode fazer a relação não ir para a frente: um desistir constantemente de discutir. Chega ali a uma fase que desiste sempre, abstendo-se de debater ideias. Isso é muito simples e pode causar grandes problemas! É aí que a relação deixar de conseguir seguir em frente.
Era uma vez uma menina que descobriu a pólvora. Como todas as descobertas, veio carregada de vantagens e desvantagens. Passou a ter um músculo com maior actividade. Muitos outros órgãos passaram a ter funcionar melhor, o dedo pequenino passou a erguer-se, o espevitado e o médio começou a armar-se em macaquinho de imitação. Há sempre um em todo o lado! Era uma vez uma menina que descobriu a pólvora e nunca mais se deixou enganar.
Espreitas da ombreira da porta
Enquanto finjo não perceber que aí estás
Evito esse olhar que me perturba,
Aquece o coração
E tantas vezes me conforta.
Sei que não sabes como começar.
As palavras sempre foram o teu forte
Mas nunca nestas alturas.
Por isso não te quero olhar.
Receio o brilho que me derrete,
O calor que me lembra a morte.
O fulgor que sempre foi o meu fraco.
O teu olhar assusta-me!
Como se de o cruzar, me transforme num caco.
Ergo a cabeça e continuas na soleira
Ombros descaídos, peito flamejante
E quando vislumbro mais do que a sombra,
Sei-o, estou certa!
Esses dois sempre foram a minha perdição...
Mesmo quando cá dentro
Há uma voz me põe alerta.
Quando abro os olhos deparo-me com um quarto a que a luz chega cor de laranja. Vejo-te de costas na cadeira preta, admirando-te sem que o percebas. É divina a imagem que os meus olhos captam e que a banda sonora, na sua simplicidade, só consegue consegue melhorar. Quando rodas a cadeira e mergulhas no edredão preto há algo dentro de mim que sabe que aquele momento só será finito no tempo (tão escasso, esse!), porque a memória fará questão de o eternizar naquele tão grande compartimento dedicado a ti. Surge uma explosão de ternura de dentro para fora que me alimenta a alma e me aproxima inexplicavelmente de ti. Ouço o contrabaixo ao fundo. Aninho-me junto à tua pele sentindo-lhe a textura com a ponta dos dedos, que fazem questão de a percorrer de lés a lés. Vamos discutindo o amor entre homem e criança que dizes ser entre homem e homem. Rimos com a minha inocência. Rimos porque estamos no nosso ambiente. Rimos porque existimos juntos. E o piano de fundo... Vamos cantarolando enquanto seguras o chuveiro. E sei que vou cantarolar até quando não estiveres por perto, só porque tu és música. E dessa partitura eu não quero perder nem uma nota.
Entre uma margem e outra, numa teia de abraços e beijos, imagens para a posteridade, amendoins e cerveja à média luz, jantares fugidios e longas conversas, aqui eu fui feliz.
Tenho a inconstância da lua, a saudade das mulheres que choravam os maridos que partiam rumo ao novo mundo, a vontade dos que amam, a ambiguidade dos que pensam em muita coisa, a imaginação dos inseguros, a alegria dos que têm família, a sorte dos que vivem. Sou tudo e nada. Posso ser princípio e fim. Consigo ser o bem e o mal. Ter o finito e o infinito.