Do alto da sua juventude entrou para a faculdade, seguindo o exemplo materno e a paixão por crianças. Divertiu-se com as amigas durante as férias de verão. Passeou, viajou de barco e conheceu um marinheiro que pensou que a pudesse levar a bom porto. Não levou, ainda que lhe deixasse as recordações escaldantes com um homem de farda, que qualquer mulher gostaria de ter. Pouco depois, meia dúzia engenheiros voaram até à ilha. Por lá ficaram, numa república mundana que lhes mudou a vida. Conheceram as meninas da terra, que enlouqueceram por eles e lhes atenuavam as noites de solidão. Maria Ana envolveu-se com António e Inês com Carlos. Entre Inês e Carlos tudo corria às mil maravilhas, para gáudio dela. Já António não tinha para com Maria Ana as mesmas atenções nem pretensões.
Foi então que Maria Ana não conseguiu evitar uma gravidez. António entrou em pânico, não sabendo como contar aos pais, pessoas tradicionais e de mente pouco aberta. Não havia outra solução para um rapaz de boas famílias que não o casamento. E assim foi. Numa manhã sombria, subiram ao altar da capela de Nossa Senhora do Socorro, sob o olhar atento de todos os convidados. Foram poucos os sorrisos que se rasgaram para as fotografias e pouca a alegria que se conheceu por aquelas bandas.
Foram começar a vida num novo sítio. O filho nasceu e nesse dia conheceu a nova cunhada, que se viria a revelar uma companheira de tantas horas. O bebé tornou-se numa linda criança de olhos azuis e eis que chega a menina. Está assim concretizado o sonho de quaisquer pais: um casalinho. Mas Maria Ana sentia-se cada vez mais só naquela terra longínqua que a acolheu bem mas não lhe trouxe a família para perto. E António continuava a ser amado como dantes sem conseguir retribuir tamanha dedicação. Vieram discussões, cenas de ciúmes e ameaças. E António de mãos e pés atados, que quem não sente pode dedicar-se, mas não pode dar o que não tem.
Os anos passaram, os filhos cresceram e o casamento continuou igual ao namoro. Maria Ana agarrou-se às crianças como só uma mãe infeliz pode fazer, proporcionando-lhes tudo o que podia e não podia, enquanto definhava na amargura que transportava no coração.
Os filhos começavam a aperceber-se do que se passava dentro de casa. E o filho, pré-adolescente com crises existenciais, revoltava-se com o mundo. Mundo esse que abrangia em muito o lar. Um dia, Maria Ana decidiu que tinha de mudar de vida. Desconfiava que estava a ser trocada e tentou ir para longe de casa. Pouco tempo depois, discutiu com o primeiro rebento. No dia seguinte levantou-se como sempre para levar os filhos à escola, dar aulas, ir buscar os filhos e ajudá-los nos trabalhos de casa. Fez o jantar e deixou-o na mesa. Depois disso, Maria Ana decidiu partir.
Jota, o filho, soube que a mãe o tinha abandonado naquela fase difícil e pontapeou um cesto de roupa. Mia, a filha, soube que tinha uma estrelinha no céu a brilhar por ela. E assim, Maria Ana teve na morte a atenção que sempre pediu em vida.




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