Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




sábado, 30 de janeiro de 2010

Perlimpimpim




Gostava de ter vontade de escrever e libertar tudo o que vai cá dentro. Limpar a alma. Depois, apenas me restava esvoaçar por aí ao sabor do vento, enquanto espalhava pós dourados de alegria. Desprendia todas as amarras e podia finalmente abrir-me ao mundo. Mas já que hoje não passa de um dia normal, resta-me sorrir e voltar a acreditar que o futuro é possível, mesmo quando já o guardámos num baú e o enfiámos num canto escuro, no sótão.



Tens hoje só p'ra mim
Pós de perlimpimpim
És um arroz doce, sim

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Lentamente...


Ainda recordo aquele dia quente que passei em casa e que criou entre nós um muro inultrapassável. Lembro-me do que puseste em causa, com a tua asa ferida e as hormonas que te pulavam no peito. Da luz amarela, o taco que rugia quando era calcado, os sorrisos ébrios nem eu sei ao certo de quê. Tudo está presente em mim como se do aqui e agora se tratasse. Vejo o olhar escuro e penetrante que faz tremer pernas e vacilar. E repenso. No passado, no presente, no futuro.
Continuo ao sabor do vento, riscando dias no calendário, almejando que o tempo não passe. Não quero crescer nem saber mais. Hoje acho que já aprendi mais do que tinha para aprender. E tu que foste tão bom mestre! A razão tirou-me a vontade de viver, a desilusão a de sonhar. Queria deitar-me numa banheira e adormecer, lentamente. Talvez aí conseguisse rever bons momentos há tanto guardados no fundo do baú. E voltar à inocência enquanto a luz se acendia. E apagava.




É como o nosso amor
Somente embalo
Enquanto não é mais que uma promessa...
Na minha cabeça há sempre ideias iminentes. No meu coração, sonhos sempre presentes. Quando alguém se apodera do nosso corpo e pensa e sonha junto connosco, é uma harmonia sem explicação. Quando depois disso nos golpeia o coração ao dar um passo atrás, obriga-nos a endurecer e aprender a dizer nunca. Mesmo que seja aos nossos maiores sonhos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Quem me dera


Quem me dera fazer-te entrar pela janela do meu quarto adormecido, ou até mesmo pela banalidade da porta de entrada, desde que cá estivesses. Quem me dera falar contigo numa noite zen em que me contasses tudo de ti e eu tivesse a capacidade de te aceitar com todas as tuas vivências. Quem me dera também eu poder partilhar as minhas e termos maturidade suficiente para pormos uma pedra no assunto e nos amarmos ainda mais. E como gostava de te poder exibir por aí como se todos os dias fossem de Primavera e todas as noites tivessem o luar do estio. Guardava-te no peito já sarado, tirava-te o coração e curava as feridas uma a uma, com todo o jeito que só o amor traz. Depois voltava a pô-lo no sítio e cosia-te o peito num bordado de Viana, para que a cicatriz fosse mais do que isso mesmo. Sim, queria era ter-te aqui. Tudo o resto é conversa.
Noutro dia voltei ao passado. Assim pude saber claramente o tipo de argumentos que era usado. E gostei de ver que agi bem, mesmo que o passado recente fosse obscuro.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Laços


Com o passar do tempo, deixei de coleccionar peças e dediquei-me a coleccionar momentos. No natal, nos anos ou em qualquer outra data em que é suposto receber presentes, eu não me importo nada de abdicar deles em prol de bons momentos. Não estou aqui armada em boa samaritana nem me muni de uma boa dose de hipocrisia para escrever este post. Nem tampouco estou a afirmar que odeio receber presentes, afinal quem não gosta? Mas não é a matéria que me faz feliz.
Há já alguns anos que não tenho um aniversário feliz. É um dia como a passagem de ano, em que parece que é obrigatório divertirmo-nos e irradiarmos alegria. Eu simplesmente não consigo, por mais que me encham de presentes e frases bonitas, pelo simples facto de nunca estar rodeada de toda a gente que me preenche e faz de mim a pessoa que sou. É o namorado que não está, os amigos que estão quase todos em exames e não podem perder um minuto de estudo... Um enormidade de situações! E esses dias têm sido soturnos. De grandes conversas, grandes reflexões, dos banais "obrigada" a todos os que se lembram, mas nem um momento de alegria. Mesmo que a família se esforce até mais não e ainda haja uma ou duas pessoas que realmente marquem presença. É por isso que nesse horrível dia que tira cor à Primavera eu trocava todos os presente que tenho tido (que não são tão poucos assim), por uma casa cheia de gente importante. Não faz sentido encher a casa só por encher.
A vida obrigou-me a crescer e a saborear os pequenos prazeres quotidianos. Afastou-me completamente do supérfluo e aproximou-me claramente da vontade exponencialmente crescente de criar laços importantes. Afastou-me dos que pouco interessam e ensinou-me o prazer da dedicação. Mostrou-me que há três ou quatro pessoas com quem devo partilhar as alegrias e amarguras, porque estarão lá sempre para me transportar ao colo quando precisar. Ensinou-me a confiar profundamente em quem completa a minha metade, porque só podemos partilhar a vida com quem nos conhece infinitamente, com todos os podres que precisa de saber.
Hoje sei que não quero tops sensação, perfumes primaveris ou brincos compridos. Quero ser coleccionadora de bilhetes, palavras, festas na cabeça, abraços quentes, cheiros guardados na imaginação, presenças importantes, noites apaixonadas, telefonemas empolgantes, álbuns cheios de sorrisos e calendários de esperança.



Podes vir amanhã acreditar no mesmo Deus.
Podes vir amanhã, se queres vir amanhã, podes vir amanhã.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O lenço





Sim, esta música já por aqui pairou. Teve de voltar, num dia em que sei que não quero voltar a passar por esta dor dilacerante. Quem nunca passou?

Desejo imenso

Ontem vi-te chegar na penumbra de uma noite nova, mas tão parecida com outras passadas. Vinhas pé ante pé, com um sorriso que brilhava no silêncio da escuridão. Aproximaste-te da cama onde dormia e tocaste-me o cabelo da forma mais intensamente leve que o mundo conhece. Ouviste-me a respiração constante que apenas descompassou quando senti a tua presença. Contaste-me telepaticamente o que te atormenta, como tantas vezes fazes quase sem que nos apercebamos e partilhaste todos os teus sonhos que já sei de cor e salteado. Tiraste a roupa e enfiaste-te no nosso casulo enquanto te deitavas em concha. Sussurraste, mesmo não sabendo que sussurravas. E eu escutei, mesmo não sabendo que escutava.
Assim viajámos na irrealidade sonhada, munidos de uma força guerreira digna dos contos que ouvíamos antes de adormecer. Corremos o mundo, lemos poesia ao pé do lago, mergulhámos na profundeza do mar nocturno, vimos a neve lá fora enquanto aquecíamos a alma à lareira, provámos sabores inimagináveis, correste atrás de mim enquanto ríamos compulsivamente e apanhaste-me para não mais me largares. Fomos um só, enquanto abraçámos a vida que jurámos ser sempre nossa. E os nossos corações abandonaram-nos para um tango num qualquer salão argentino, que não há maior amor do que o dos corações que dançam juntos na imensidão da imaginação alucinada.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Toque de entrada


Sabes pequena, nem tudo na vida são rosas. Nem sempre vais abrir a janela de manhã, tomar um banho revigorante, pôr um creme perfumado no corpo e sorrir enquanto pões um pé fora de casa. Eu já o fiz vezes sem conta, quando achava que nada me poderia atingir. Agora consigo tudo, menos a inconsciência do sorriso. Já esqueci a inevitabilidade da alegria. Os momentos de felicidade acoplam-se invariavelmente à nostalgia do futuro.
Nem sempre terás a paciência de outrora. Outras vezes ganha-la-ás sem saber como. Já não vais querer partilhar-te com todos, pois perceberás que a beleza da vida está na simplicidade das pessoas que te aquecem a alma. Verás com maior desconfiança qualquer estranho, mas serás menos medrosa em relação ao desconhecido. Podes todos os dias duvidar do que queres, mas nesses mesmos dias terás uma ideia mais segura do caminho a seguir. Não receies viver, que não há erro maior! E não feches a tua concha mais do que o necessário, que tu precisas dos outros. Já aprendi qualquer coisa que partilho contigo, como fizeram comigo. Mas sei que por muito que me ouças e que leias, nem tudo vem nos livros e não há melhor professor do que a própria vida.
Hoje morreu mais um bocadinho de mim. Subiu ao céu e foi descansar em paz nesse outro mundo que mo roubou.

sábado, 16 de janeiro de 2010

The long and winding road

Quedas



Por vezes cais e levantas-te logo, olhando em todas as direcções na esperança de niguém ter visto. Outras cais e esmurras o joelho, esfolas as mãos e tens vontade de chorar. Olhas na mesma em todas as direcções esperando teres passado despercebido e segues. Talvez tenhas de pedir ajuda, mas não é tão humilhante pedir ajuda por algo que contas como por algo a que o ajudante assistiu. Há também aquelas em que partes mesmo uma perna e alguém tem de te levar ao colo até que tenhas cuidados especializados e sábios. Depois, há as quedas graves que dás sozinho, em que é difícil ou até impossível levantares-te, não tens quem te dê a mão, não tens uma palavra calorosa nem mesmo um sorriso de alento. Essas são as marcantes. As que ensinam a viver.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

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Hoje queria desaparecer. De mansinho. Sem que niguém notasse a minha ausência. Desaparecer só porque sim, sem explicações. A seco. Talvez tudo se tornasse mais belo. Tivesse eu coragem.