Ontem vi-te chegar na penumbra de uma noite nova, mas tão parecida com outras passadas. Vinhas pé ante pé, com um sorriso que brilhava no silêncio da escuridão. Aproximaste-te da cama onde dormia e tocaste-me o cabelo da forma mais intensamente leve que o mundo conhece. Ouviste-me a respiração constante que apenas descompassou quando senti a tua presença. Contaste-me telepaticamente o que te atormenta, como tantas vezes fazes quase sem que nos apercebamos e partilhaste todos os teus sonhos que já sei de cor e salteado. Tiraste a roupa e enfiaste-te no nosso casulo enquanto te deitavas em concha. Sussurraste, mesmo não sabendo que sussurravas. E eu escutei, mesmo não sabendo que escutava.
Assim viajámos na irrealidade sonhada, munidos de uma força guerreira digna dos contos que ouvíamos antes de adormecer. Corremos o mundo, lemos poesia ao pé do lago, mergulhámos na profundeza do mar nocturno, vimos a neve lá fora enquanto aquecíamos a alma à lareira, provámos sabores inimagináveis, correste atrás de mim enquanto ríamos compulsivamente e apanhaste-me para não mais me largares. Fomos um só, enquanto abraçámos a vida que jurámos ser sempre nossa. E os nossos corações abandonaram-nos para um tango num qualquer salão argentino, que não há maior amor do que o dos corações que dançam juntos na imensidão da imaginação alucinada.

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