Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os imortais

Nós, que somos imortais, nós que estamos vivos e por isso nos presumimos imortais, nós que temos a imortalidade toda condensada no segundo que passa, no instante que se consome aqui e agora, nós avisamos toda a gente que se pode morrer por não usar cinto de segurança. Nós, donos supremos e absolutos da moralidade, da perfeição, da conduta irrepreensível, nós que nunca tivemos relações sexuais sem preservativo, nós que nunca pusemos um cigarro na boca, nós que não comemos enchidos nem pão com manteiga, nós que deixámos de comer carne de vaca e depois aves e depois pepinos e deixaremos de comer o que tivermos que deixar de comer, nós que não damos batatas fritas com ketchup aos nossos filhos, nós que sustemos a respiração quando nos passeamos numa cidade poluída, nós que nunca passámos um risco contínuo nem um semáforo vermelho, nem excedemos jamais o limite de velocidade e nunca, nunca nos esquecemos de dar o pisca, nós que nunca tivemos um ato irrefletido, irresponsável, imponderado, incorreto, inconsciente, precipitado, nós que trabalhamos arduamente em cada segundo das nossas vidas para sermos eternos, nós que conseguimos fazer o tempo estancar, as doenças reverterem, a má sorte afastar-se. Nós, os grandes e legítimos juízes do comportamento dos outros, condenamos a estupidez do miúdo dos Morangos com Açúcar, que tinha o carro e o corpo que gostávamos de ter, porque, rais'parta!, não levava cinto de segurança. Se levasse, seria perfeito e imortal, como nós.



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Assaltos

Sempre fui muito medricas. Desde pequena que me lembro de ter medo de andar em casa à noite. Nunca tive medo de fantasmas ou mortos, era mesmo de pessoas que pudessem andar por lá armadas. Como nunca me aconteceu nada, acabei por ficar mais tranquila e perder muitos dos meus medos.
Quando entrei na faculdade, perto de uma discoteca, tentaram assaltar-nos. Com direito a armas e pancada, mas pouco foi o que levaram. E voltaram todos os medos. Tinha pavor de andar na rua à noite, olhava sempre para todo o lado mesmo sabendo que estava segura e foi muito o dinheiro que gastei em taxis. Com o tempo e com a experiência, voltei a andar relativamente tranquila, ainda que com cuidado.
Na noite passada, na aldeia pacata onde vivo, à porta de minha casa, roubaram uma carrinha ao meu avô enquanto ele foi lá dentro. E agora eu pergunto-me, onde é que me vou sentir segura? Já nem em casa, que à partida é sempre o nosso porto de abrigo.

Angélico

Se há coisa que me dói, é a morte. Sobretudo quando se trata de alguém que ainda tinha uma vida inteira pela frente. Mesmo não conhecendo a pessoa e não sendo fã, entrou-me em casa vezes sem conta. E sempre pela porta da frente.
Hoje ponho-me apenas no lugar dos pais, dos amigos e da ex-namorada. Não preterindo outras que o possam ter sido. E não quero imaginar o que vai lá dentro.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um a um




E já que tanto se fala da nova estação, não pude deixar de fazer uma retrospectiva e ouvir o que tão bem já me soube nesta altura. Num Verão escaldante e doce, enrolei-me em abraços de ternura e vozes quentes. Dancei com leveza, cantei até ao raiar do sol e ao despertar da aurora, que me trouxe de volta a realidade.

 

Pois é Leonor, se tivesses podido continuar aqui, hoje já farias dezasseis anos. Dezasseis anos de alegria, certamente. Afinal com essa idade só se tem a opção de ser feliz.
Assim sendo, hoje festejarei comigo, em pensamento. Como todos certamente farão. Estarei ainda mais próxima da tua recordação, enquanto guardo o teu nome num local fresco. É teu, que me acompanhas sempre e um dia espero poder dá-lo a alguém.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Já é Verão!



Adeus, filho




Sempre quis ser mãe. Desde pequena que esse é um projecto de vida, a realizar na altura certa. Quero sê-lo tendo a certeza de que posso ser competente na minha função, que tenho o pai perfeito para o meu filho e que temos a certeza de que estamos dispostos a acompanhar juntos o crescimento da criança. De outra forma não faz sentido.
E hoje o C. fez-me pensar em algo assustador. A propósito da morte de Ryan Dunn, o actor de "Jackass", falámos da dor dos pais que perdem um filho. Deve ser absolutamente dilacerante. E, disse ele, que quando se pensa em ter filhos, nunca se põe a hipótese que um dia os podemos perder. O que é verdade. Nenhum pai acha que pode perder um filho, por maior que seja o temor.
Lembrei-me dos meus tios que perderam a L., de que tanto falo. Daquele casal que perdeu o N, numa saída à noite normal. No outro que perdeu o M. com uma leucemia. E de uma mãe que mal conheço, mas com quem já estive diversas vezes e de todas lhe vi a tristeza estampada no rosto. A mãe do Carlos Paião. Uma mãe que tanto orgulho devia ter naquele filho único, que a estrada lhe roubou. O filho que musicou a história da sua vida.


Ouve, quero contar-te uma história de amor
Dessas que a gente já sabe de cor
Igual a tantas que esta vida tem
Vais conhecer duas pessoas como outras quaisquer
Dois namorados que foram viver
A história linda de quem se quer bem

Apaixonados com o tempo à frente
Tinham carícias a queimar na mão
Tocando a dor de quem se sente
Um escravo do seu coração
E num só corpo quando se abraçavam
Beijando as horas com melancolia
Nunca as palavras chegavam
Para tudo o que no peito havia

Ela, sempre bonita na sua ternura
Dava alegria, a forma insegura
Dos que procuram sonhar o real
Ele, tinha um emprego nas ondas do mar
Pescava os versos do seu navegar
E as despedidas sabiam-lhe a sal

Adeus querida, que me vou embora
Levo as saudades, que te vou deixar
Hei-de lembrar-te noite fora
Assim como quem quer chorar
O mar é longe e longa é a nossa espera
E as palavras vão de encontro ao cais
Adeus querida, quem me dera
Que eu não partisse nunca mais

E depois, os dois casaram como era suposto
Sonhos na alma, sorrisos no rosto
Como as pessoas mais belas do mundo
Lado a lado, criando as ruas do seu dia-a-dia
Dobrando esquinas que a sorte trazia
Como nós todos fazemos no fundo

E então perguntas-me a razão da história
Assim tão simples como respirar
Sabes, amar é uma vitória
E a vida é simples de contar

Eu aprendi a perceber melhor
A importância das coisas normais
É que eu fui filho desse amor
Da história linda dos meus pais

Eu sou o filho desse amor
Palavras que já não dizem mais
 

Adormecido




Entrámos no carro e perguntaste-me o que queria ouvir. Não sabia bem, as opções não eram muitas. As músicas estavam gastas, a sonoridade deixou de ser audível. Encontraste um cd no meio de tantos perdidos, que concordámos ouvir. Era já bastante antigo mas sabíamos as letras todas de cor.
Cantámos enquanto desbravávamos o escuro, umas mais alegremente, outras com maior nostalgia, até chegarmos à música que associo sempre a ti e ao J. Antes de começar pus mais alto, sem querer. E logo me arrependi. Quando vocês se reconcialiaram, ele disse-te que sempre que ouvia essa música pensava em vocês e que a ouvia vezes sem conta. A partir daí passaste a ouvi-la em repeat e eu, que a ouvia contigo, comecei a explorar cada palavra, cada significado, cada metáfora.
Enquanto aquela voz ecoava no carro, eu revi a vossa história. Inspirei os vossos momentos de paixão como se os tivesse vivido, senti a força da ligação e a leveza de espírito que a paixão vos trazia. E sofri como tu, sofri por ti. Imagino a saudade que te invade, por mais que a tentes superar. Imagino a vontade que tens, enquanto a música toca, de a ouvires nos braços dele enquanto te sussurra todas aquelas promessas eternas. Imagino a tua sede de largar tudo e ir atrás. A que só faz sentido quando vivemos sonhando. A que não pode existir no mundo real.
E se um dia deixar de ser assim, eu estarei aqui para correr contigo essa maratona. Em alturas de cansaço, estarei cá para te relaxar. Em alturas de sonho, estarei aqui para voar contigo. Porque eu também sei que há abraços únicos. Que não se encontram em quaisquer braços, por mais que procuremos.


Continuas a ensaiar
A conveniência do sorriso
O planear do improviso
Que te faz sentir maior

No artifício dos teus gestos
Pensas abraçar o mundo
Quando nem por um segundo
Te abraças a ti mesmo

E assim vais vivendo
E assim andando aí
E assim perdendo em ti
Tudo aquilo que nunca foste

Por alguém que te conheceu
Que te faz tremer ao passar
Porque nunca a deixaste de amar


sexta-feira, 17 de junho de 2011

A festa


Ainda tenho bem presente o aniversário passado, quando tu não fizeste questão de estar presente. O nó ainda permanece cá em cima, atando memórias e angústias desses tempos.
Mas este ano superaste-te. Parece que voltei a fazer dezoito anos e o tempo não nos pode separar.


"(...) ai saudade de te encontrar."

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Greatest Marriage Proposal EVER!!!




A sensibilidade de algumas pessoas comove-me. Leva-me às lágrimas.

(Roubado daqui.)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Já lá vão onze anos, T. Onze anos sobre o dia da Criança em que eu ainda o era mas não tive o prazer de o festejar e aquele em que deixei de o ser.
A meia tarde, lá foste tu para mais longe de nós e para mais perto da felicidade. Assim quero acreditar. E ainda hoje sinto a tua falta. Tal como os teus filhos. Tal como a M. que no dia da Mãe ligou à minha a desejar-lhe um bom dia. Porque não to pôde dizer a ti.

Uma flor por um beijo? Um beijo por uma flor?


Quando era pequena, em tardes de sol, as gémeas levavam-me a passear. Íamos ao rio molhar os pés, passávamos na fonte a beber água quando o calor apertava, apanhávamos pampilhos com os quais fazia colares e pulseiras, provávamos amoras sumarentas e quentes e, contornando as abelhas que por lá pairavam, apanhávamos rosas silvestres. Daquelas que só nascem em encostas. E cheirava-as até casa. Aquele perfume fresco e intenso deliciava-me. Nem me importava com os espinhos pequeninos. Cheguei ao ponto de pedir à minha mãe a receita para fazer perfume, numa tentativa de eu própria poder ter aquele cheiro. Depois de inúmeras tentativas falhadas, com cheiro a flores murchas e álcool, optei por desistir. E, talvez porque cresci e os passeios acabaram, pouco me voltei a lembrar daquelas flores.
Até ao outro dia. Quando naquela manhã de queima que vai ficar para a história pelo número de flores que me apanhaste, me deste uma rosa silvestre, nem podia acreditar. Ainda caíste no erro de te picar ao tentar apanhá-la. Menino. Vê-se bem que não tiveste o prazer de as possuir antes.
Trouxeste-me à memória lembranças esquecidas. E assim se adaptou a história. As rosas da criança são as mesmas da mulher. Os cenários são diferentes, tal como os intervenientes. A cena idílica repete-se. Obrigada.