Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 27 de maio de 2010

Como se passa a simpatizar (muito) com alguém


Labirinto

A vida é distante
No tempo suspenso
A vida é distante
No nosso presente
É quente o que vejo
Mas frio o que sinto
É mentira o que tenho
Mas sei o que vejo

No meu labirinto

No meu labirinto
Há gente que cai
Depois de perder há gente que cai


Vê quem parou 
Olha o que dói.

Difícil de sarar



Tenho andado a repensar seriamente a minha vida. Mas se a memória me permite recordar datas e flashes, não me permite recordar todas as emoções. Nem todos os momentos. E foi o que hoje tentei fazer, com a ajuda de e-mails antigos. Não reli todos, que não há tempo para isso e há uns que sabemos quase insignificantes. Reli os que percebi que importavam.
Alegrou-me ver que cresci. Entristeceu-me ver como fui. Num ano de receios e fragilidade, vejo agora que os meus medos me fizeram expôr em demasia. Numa altura em que te vias entregue às feras pela primeira vez e eu receava a minha própria entrega, abri-te o coração desmesuradamente. Mal eu sabia os conhecimentos que travavas e que, esses sim, poderão ser para a vida. Hoje sei que errei e lamento tê-lo feito. Talvez tudo tivesse sido bem mais fácil e pudessemos ter avançado evitando situações dignas de verdadeiro constrangimento. Prefiro omitir a palavra sofrimento.
Passou-se um ano e chegou o teu desespero. Não reli as conversas, bastaram-me os e-mails. Diferentes dos anteriores, sem dúvida. Avista-se já outro tipo de maturidade. E chegou a ruptura. Passaram-se os meses, as frases suspeitas (e as fases também), as mensagens e uma ou outra conversa esporádica. O primeiro avistar ao longe, a primeira palavra, o primeiro suster de respiração. A primeira noite. E voltámos ao ciclo vicioso.
Finalmente conseguimos descobrir uma vida diferente juntos. Com todas as dificuldades inerentes à nossa condição, mas feliz. Era bom de ver tudo o que escrevíamos numa tentativa de diminuir a distância. As conversas que tínhamos diariamente e as mensagens que trocávamos. Lutávamos para estar juntos e para estar bem. Havia compreensão de parte a parte e atitudes que tanto nos enriqueceram.
Passou já bastante tempo sobre isso. Tempo que é preferível que fique no segredo dos Deuses, porque a vida que cada um leva na intimidade não interessa a mais ninguém que não a quem a compartilha. E acredito que incompletos conseguimos ser felizes. Hoje, que faço uma revisão de tudo, consigo ver o que ganhámos e o que perdemos. Ganhámos muito na cumplicidade, não há dúvida. Mas o que ganhámos em cumplicidade, perdemos em vontade. Ganhámos a vontade de diminuir a distância física e perdemos a de diminuir a espiritual. Estamos em pólos completamente opostos. E o problema dos pólos opostos está, como se sabe, em atraírem-se.
A vida não pode ser feita de recordações. Mas a verdade é que, se há capacidade que tenho, é a de recordar. Talvez a memória curta fosse uma boa solução para o meu problema. Não sei se é problema que já tenha cura, ou pelo menos tratamento, mas hei-de investigar.
Eu procuro soluções dentro de mim. Já as procurei fora. Umas satisfizeram-me, outras não. Mas nenhuma delas chegou, daí cair sempre em tentação. Sei que neste momento a decisão partirá de mim e que será plenamente consciente, o que será por si só um grande passo. Fui aprendendo o que quero e o que não quero e agora, conscientemente, consigo dizer que não é esta a vida que pretendo. O tempo, esse bom conselheiro, saberá dizer-me o que fazer.


We can always look back at what we did
All these memories of you and me baby
But right now it's you and me forever girl
And you know we could do better than anything that we did
You know that you and me, we could do anything


You and me together, we could do anything

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Coisas que eu poderia ter escrito

Eram duas da manhã e eu a carregar o carro, sem abrir a boca.
Logo voltou de roda de mim, a dizer que não era isso que queria, que estava arrependido e pediu-me que ficasse. E repetia-se enquanto levava malas para dentro e eu as levava de volta para fora. Não houve gritos nem discussões de morte, mas eu disse-lhe que não conseguia dormir ao lado de um homem que queria estar comigo a meio-gás. Eu não queria e continuo a não querer a felicidade pela metade. Ou tenho tudo ou não quero nada, porque isso significa viver de migalhas e eu já vivi de migalhas muitas vezes na vida para saber que não me enchem a barriga!

Poisoned Apple

O dia D



Eu tive uma infância feliz. Brinquei com bonecas. Corri muito, andei de bicicleta, caí, esmurrei os joelhos e sujei-me. Dei cambalhotas na relva, apanhei gafanhotos, joaninhas e caracóis, saltei à corda, joguei à macaca, ao macaquinho de chinês, menina que está no meio e lencinho. Apanhei amoras e rosas silvestres, piquei os dedos e arranhei as pernas, tomei banho no rio às escondidas, apanhei beatas do chão e fumei-as, costurei vestidos para as barbies e bolsas para mim. As brincadeiras foram mudando ao longo dos anos, mas houve uma que se manteve sempre. A dos namorados. Sempre tive namorados e filhos imaginários. Por vezes, materializavam-se em vassouras, com quem passeava, dançava ou dava beijos na boca. No verão, fazia vestidos de noiva ao corpo e desfilava.
O sonho de casar foi um daqueles que levei para a pré-adolescência. E para a adolescência. Até para a idade adulta. E que se desvaneceu, talvez porque me tornei mais realista.
O casamento é um passo que não faz sentido com qualquer namorado. Só faz sentido com alguém que ocupa um lugar cimeiro e único no coração. Com alguém que temos a certeza que é para a vida, mesmo que anos mais tarde percebamos que não é bem assim. De outra forma não faz sentido.
Depois, põe-se o caso de até acharmos que temos "A" pessoa e não temos o resto. Quando sabemos que nunca fomos genuinamente felizes nos dias que tinham tudo para que fossemos, achamos que talvez não valha a pena arriscar. Quando achamos que a pessoa é a que queremos para a vida, mas não nos pode proporcionar um dia de casamento único, verdadeiramente nosso, recheado de surpresas e lágrimas de alegria, sabemos que não queremos forçar o dia único. Ou quando a ouvimos uma vez na vida falar desse dia  com receio. Esse receio pode acabar com o sonho de uma vida.
Hoje sei que não quero casar. Que para isso, teriam de ser movidos mundos e fundos. E que, ainda assim, eu teria tendência a ser racional. Não por birra ou por orgulho. Por tudo o que se passou e por saber que simplesmente já não faz sentido. Por saber ainda que teria dúvidas e que, como já disse, esse é um dia de certezas. A felicidade pode fazer-se mudando sonhos. E eu não quero arriscar falhar mais um.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O melhor da vida


Tenho um grave problema de gratidão e admiração. Nos últimos dias, depois de ter recebido mensagens de duas pessoas importantes, recordei o bem que me fizeram. São pessoas com quem já não tenho convívio diário, mas que não deixam de estar presentes diariamente dentro de mim.
Numa dada altura complicada da minha vida, precisei de apoio. As pessoas que esperei que mo dessem, não deram. E assim me apoiei naquelas que se lembraram de se preocupar comigo. Que me ouviram e se fizeram ouvir, que me limparam as lágrimas e dormiram do meu lado depois de extenuantes conversas. Foram aquelas que me afagaram a cabeça no colo, abraçaram nos sítios improváveise e me divertiram em noites inesquecíveis. Essas foram as que me ajudaram a dobrar a roupa e a fazer a mala, que me abrigaram no seu casulo e que despoletaram o prazer pela escrita. Abriram-me o seu coração, acolheram-me como parte de si e partilharam o seu mundo.
Sinto saudade da altura em que todos os dias eram deles. De acordar e saber que um simples telefonema nos levaria a estar juntos. De sair de casa e saber que os veria, mesmo que sem querer. Da certeza que tinha aqueles ombros todos à minha espera na esquina mais próxima. Da noção de que a nossa noite poderia acabar dentro de um carro, no meio do nada a ver o céu ficar rosado ou num pinhal ermo, que naquele porto de abrigo eu estava segura. Sinto até saudade da velocidade e da adrenalina na cidade, na auto-estrada ou entre as árvores.
Alegra-me a certeza de que quando as vejo, o tempo não passou. E hoje tenho por elas uma admiração que nem o infinito pode quantificar.

No teu poema




No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira, um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio, o canto em vozes juntas,
vozes certas, canção de uma só letra
e um só destino a embarcar
no cais da nova nau das descobertas.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

José Luís Tinoco

Voz: Carlos do Carmo

Ambiguidade

Ao longo da vida todos nós erramos. Uns mais, outros menos. Uns prejudicando-se a si próprios, outros prejudicando os outros. Por vezes as duas coisas.
Quando a vida se aproxima a passos largos do fim e se tem consciência disso, começa-se a fazer uma revisão do que foi a vida que se levou. E num momento de fragilidade, que não é mais do que isso, pede-se desculpa a quem mais magoámos. O problema é que a mágoa pode ser grande de mais. Os erros podem ser graves de mais. Deve o outro ser capaz de perdoar porque passou muito tempo? Deve perdoar pela fragilidade de quem o atingiu? Será a ambiguidade do sentir o perdão por si só? Eu acredito no arrependimento. Mas também acredito que o arrependimento possa surgir da fraqueza. E da gratidão. E um pedido de desculpa pode não ser mais do que uma forma de se imortalizar. Mesmo sabendo que depois da morte somos imortais.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Eu já pedi ajuda e não tive.
Já estendi a mão enquanto me traçavam a perna.
Já pedi desculpa sem ter errado.
Já perdoei sem ter esquecido.
E já esqueci sem ter perdoado.
Eu já confiei e fui enganada.
Já acreditei e falhei.
Eu já pensei muito e já esqueci de pensar.
E já imaginei muito.
Em silêncio.

Corda bamba



Há uma linha muito ténue entre o amor e o ódio.
Há uma linha muito ténue entre o desgosto e a amargura.
Há uma linha muito ténue entre a raiva e a maldade.
E eu que nunca fui boa equilibrista!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Há dois anos dei-te um grande pedaço de mim. Hoje queria tê-lo de volta e poder chafurdar sozinha na minha complexa solidão.
Todos nós temos dias menos bons. Por vezes, muitos dias menos bons demasiado seguidos. E aguentamos, dia após dia, com firmeza. Até ao dia em que damos por nós a chorar a ver televisão, a ler um livro ou somente um texto. É esse o dia em que cai a barreira que nos separa do sofrimento. É nesse dia que sabemos que não dá mais.
Um dia vou arranjar coragem para fugir desta vida. Não sei se hoje é o dia. Mas que gostava,gostava.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Felicidade padronizada




Nunca gostei de pessoas que fecham demasiadas vezes os olhos enquanto falam. Pode ser mania, sim, mas nunca consegui simpatizar com quem o faz. Também nunca gostei de pessoas que dizem ter a melhor vida de sempre apesar de todas as dificuldades.
Há alguns anos conheci uma senhora assim. Extremamente simpática, sempre correcta e que se mostrava muito bondosa. Falava muito da felicidade de todos os momentos, mesmo daqueles em que niguém pode ser feliz. E transparecia ter uma humildade nunca vista, acoplada de um excepcional amor ao próximo. Talvez me tenha esquecido de dizer que detesto pessoas extremamente bondosas. Há sempre algo muito mal resolvido nelas. E muita maldade encoberta.
Ela e a sua família mudaram-se para longe e pouco mais soube deles. Até há uns dias. A sua filha, depois de anos de incerteza quanto à sua sexualidade, descobriu ser homossexual. Descobriu o amor na sua melhor amiga. E depois de ganhar coragem, num acto de honestidade decidiu contar aos pais. A reacção não poderia ter sido pior. Não tanto pelo pai, que pensava ser o problema, mas pela mãe. Recusou-se a aceitar, proibiu a namorada da filha de entrar lá em casa e até de se encontrar com ela. Conseguiu a proeza de usar os piores insultos que conseguia. A partir daí todos os dias consegue humilhar a filha dizendo-lhe que não vale nada e chamando-lhe monstro e verme. Entretanto mandou-a para um psicólogo, porque homossexualidade na cabeça dela ainda é doença.
Cansada deste ambiente caótico, está aquela miúda, não mais do que uma criança, praticamente entregue aos bichos. Pensa sair de casa, num país que não é o seu, num abiente que não é o seu. E eu questiono-me: que mãe é esta? Que seja complicado para ela perceber, até se entende. Agora que destrua a auto-estima de uma filha que ainda está a construir a sua personalidade? Que faça a filha sair de casa tirando-lhe o chão debaixo dos pés e comprometendo-lhe aquele que podia ser um bom futuro? Isso é inadmissível nos dias de hoje.
E é esta a mulher que há uns anos, em todas as conversas, dizia que na vida o que interessava era o amor e a felicidade. Pelos vistos o amor e a felicidade só existem sob certos padrões pré-elaborados. É lamentável que o nosso mundo ainda comporte pessoas assim. Mas eu acredito que ainda há justiça e que a menina-mulher poderá ser muito feliz.

Da vida real e do fantástico


Durante muitos anos segui todas as novelas brasileiras. Depois cansei-me e não consegui seguir mais nenhuma. Agora que esta novela se aproxima do fim, comecei a seguir alguns episódios e rendi-me a certas personagens e certos diálogos tão dignos do Maneco que em tempos seguia religiosamente. Hoje, de luz apagada, ouvi esta conversa e as lágrimas extravazaram a felicidade nostálgica que se apoderou de mim. Relembrou-me um episódio de há dez anos que vi vezes sem conta e chorei em todas. Não pensei que voltasse a acontecer, mas a verdade é que voltou. Continuo a admirar a beleza que tantas vezes têm os momentos mais simples.Também não sei se na vida real as coisas podem acontecer assim mesmo. Ou se pelo menos na minha vida real acontecerão. Mas na imaginária é assim mesmo. Sem tirar nem pôr.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Por um mundo melhor

terça-feira, 18 de maio de 2010

Eu não o diria melhor.
Lembrei-me do ano passado. Dos dias em que o coração não parava no peito, em que a cabeça era livre como um pássaro e dos dias em que o corpo me pertencia. Lembrei-me do ciúme que não existia, da leveza de viver e da incerteza futura que tão bem sabia. Hoje lembrei-me da leveza de espírito e da libertinagem e voltei a ter saudade.