Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 20 de maio de 2010

Felicidade padronizada




Nunca gostei de pessoas que fecham demasiadas vezes os olhos enquanto falam. Pode ser mania, sim, mas nunca consegui simpatizar com quem o faz. Também nunca gostei de pessoas que dizem ter a melhor vida de sempre apesar de todas as dificuldades.
Há alguns anos conheci uma senhora assim. Extremamente simpática, sempre correcta e que se mostrava muito bondosa. Falava muito da felicidade de todos os momentos, mesmo daqueles em que niguém pode ser feliz. E transparecia ter uma humildade nunca vista, acoplada de um excepcional amor ao próximo. Talvez me tenha esquecido de dizer que detesto pessoas extremamente bondosas. Há sempre algo muito mal resolvido nelas. E muita maldade encoberta.
Ela e a sua família mudaram-se para longe e pouco mais soube deles. Até há uns dias. A sua filha, depois de anos de incerteza quanto à sua sexualidade, descobriu ser homossexual. Descobriu o amor na sua melhor amiga. E depois de ganhar coragem, num acto de honestidade decidiu contar aos pais. A reacção não poderia ter sido pior. Não tanto pelo pai, que pensava ser o problema, mas pela mãe. Recusou-se a aceitar, proibiu a namorada da filha de entrar lá em casa e até de se encontrar com ela. Conseguiu a proeza de usar os piores insultos que conseguia. A partir daí todos os dias consegue humilhar a filha dizendo-lhe que não vale nada e chamando-lhe monstro e verme. Entretanto mandou-a para um psicólogo, porque homossexualidade na cabeça dela ainda é doença.
Cansada deste ambiente caótico, está aquela miúda, não mais do que uma criança, praticamente entregue aos bichos. Pensa sair de casa, num país que não é o seu, num abiente que não é o seu. E eu questiono-me: que mãe é esta? Que seja complicado para ela perceber, até se entende. Agora que destrua a auto-estima de uma filha que ainda está a construir a sua personalidade? Que faça a filha sair de casa tirando-lhe o chão debaixo dos pés e comprometendo-lhe aquele que podia ser um bom futuro? Isso é inadmissível nos dias de hoje.
E é esta a mulher que há uns anos, em todas as conversas, dizia que na vida o que interessava era o amor e a felicidade. Pelos vistos o amor e a felicidade só existem sob certos padrões pré-elaborados. É lamentável que o nosso mundo ainda comporte pessoas assim. Mas eu acredito que ainda há justiça e que a menina-mulher poderá ser muito feliz.

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