Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 28 de maio de 2009

Maçãs quentes




E já que hoje o dia vai ser de novo quente, relembro os dias quentes de pequena, em que as maçãs caíam das árvores e continuavam a ser aquecidas pelo sol. Eu apanhava-as, passava-as por água e comia-as assim mesmo. Não me importava que pudessem ter lagartas, que pudessem fazer mal por estarem quentes... Nada! Era muito mais inocente, logo descontraída.
E agora relembro o dia em que estava sentada com um monte de maçãs no colo e um senhor me aterroriza com um "ai o teu avôzinho! ai o teu avôzinho!", que naquela altura deve ter feito sentido para ele e para mim. Ora, como se o meu avô que está sempre a falar da importância dos legumes e da fruta, que insiste em contar-nos como ele não gostava de tomates e passou a gostar, se importava que eu apanhasse meia dúzia de maçãs e as comesse, mesmo que me dessem uma valente diarreia ou me fizessem provar uma lagarta, qual Timon e Pumba.

Parabéns, Mãe!

A ti que passaste meses tenebrosos enquanto eu passava de uma célula a um bebé de carne e osso, que estiveste horas intermináveis daquele sábado chuvoso à espera que decidisse ver o mundo, que deste o primeiro colo, a primeira papa, que me ajudaste no primeiro de tantos passos que esta vida nos obriga a dar, que me ensinaste a primeira palavra e talvez até tenhas ouvido a primeira frase... A ti que acompanhaste todas as alturas em que a roupa deixou de me servir, me explicaste que ia ter uma irmãzinha e me deste a tarefa de lhe escolher o nome. A ti que me viste andar pela casa com os sapatos do pai num estranho complexo de Édipo e depois me viste com os teus, com as tuas roupas, a tua maquilhagem. A ti que me deste as palmadas quase sempre merecidas (a da lagartixa é excepção), os castigos nem sempre justos (como aquele das salsichas) e que tantas histórias me leste para adormecer.
A ti que me foste acompanhando em cada maratona da minha vida, dando-me sempre a força mais importante e defendendo-me com as tuas garras maternas afiadas. A ti que és a pessoa que mais me dói ver chorar. Tu que já passaste por tanto e sempre aguentaste de cabeça levantada e comigo e com a minha irmã debaixo da asa. Tu que estiveste sempre com a flor quando subia a um palco e tinhas uma lágrima para derramar quando a emoção tomava conta de ti. Tu que me aconselhaste no primeiro namoro, me disseste quando estava errada e exagerava e que hoje, tantos anos depois continuas a saber o que devo fazer. Tu que me contaste a tua história e tentaste que não caísse nos mesmos erros, me ensinaste a conhecer os homens e tantas outras pessoas com quem me fui cruzando. Tu que continuas aqui, na primeira fila a torcer por mim até ao momento em que faço uma vénia e olho para o lugar onde sei, de antemão, que estás.
A ti, Mãe (que me ensinaste que se escrevia assim), desejo as maiores felicidades do mundo e te dou um enorme beijo de parabéns.

quarta-feira, 27 de maio de 2009


My gift



Hoje, depois de uma discussão acerca do porquê destas Graças e Desgraças, só quero roubar o Elton John e gritar:


My gift is my blooooog
And this one is for you

terça-feira, 26 de maio de 2009


Ontem lembrei-me, vá-se lá saber porquê, de ver este filme. Já o vi inúmeras vezes e por isso deixei de o ver durante tanto tempo. Não queria que se tornasse banal. Mas ontem, ainda que soubesse inúmeras falas de cor, não consegui deixar de o viver como se tratasse da primeira vez. Era ver-me deitada, agarrada à almofada, a chorar a tristeza de Allie e Noah como se da minha se tratasse e a sorrir com a sua felicidade, sorrindo pela minha. E era rever-me em cada fala, em cada dança no meio da rua, em cada discussão que começa do nada e que no segundo seguinte já nos encheu de arrependimento. E era ver-me, como sempre, a acreditar que é possível viver assim, com o coração arrebatado e a vida entregue ao outro.




So it's not gonna be easy. It's going to be really hard; we're gonna have to work at this everyday, but I want to do that because I want you. I want all of you, forever, everyday. You and me... everyday.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dá que pensar


"Não se fosse dar o caso de numa destas palestras me ter apercebido o que pderá ser um lapso nesta lógica, a primeira 'racha' nesta bela ordem amorosa na história da Humanidade detectada pela própria Dra. Fisher e provocado pela dupla psiquiatras/indústria farmacêutica ao precreverem antidepressivos de forma massiva e durante períodos prolongados a pessoas cada vez mais jovens, alterando de forma substancial a química do cérebro. A sobredosagem de serotonina suprime os circuitos de dopamina, associada ao amor e ao desejo sexual. Mais de uma equivale a menos de outra. Ela relata mesmo casos de homens que voltam a apaixonar-se pela mesma mulher após suspenderem a toma de antidepressivos. Alto lá!
Hoje em dia qualquer pessoa que tenha levado uns coices da vida já trouxe para casa umas receitas de antidepressivos convencido que vai tomar um analgésico da alma. Um tunning da mioleira. E recusa-se ao desmame. Mas este é um efeito secundário que não consta na bula: 'Risco de se desapaixonar pela cara-metade ou de passar pelo amor da sua vida, não o detectar visualmente e de não lhe ligar peva por ter o cérebro atafulhado em serotonina.' "



Luís Pedro Nunes, in "Única" #1908

Os Maias no Trindade


Este fim de semana fui finalmente ver. Tinha adorado o livro, tendo-o entre os meus favoritos, e gostei imenso da peça. O calcanhar de Aquiles foi mesmo Sofia Duarte Silva, a quem reconheço falta categoria para encarnar uma personagem com a sumptuosidade de Maria Eduarda. Mas valeu pelo poeta Alencar, o majestoso Afonso da Maia, o hilariante Ega (tão, mas tão bem representado!) e o magnífico Carlos da Maia, tão apaixonante em palco como no livro.
Faltou apenas a exploração desta parte, para mim a mais bonita do livro e que ainda hoje tanto me influencia. Apesar disso, está aprovadíssima!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O amor em visita



(...)
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.

- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
(...)



Herberto Helder

Assim, consigo imaginar-te aqui e saber o que dirias, na primeira hora da manhã.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Avó Ditinha


E hoje, enquanto ainda dormia, na minha barulhenta rua cantava-se:

Oh comadre, rica comadre
Gosto muito da sua pequena
É bonita, apresenta-se bem
E o melhor que ela tem é a face morena!

E a primeira pessoa que me passou pela cabeça assim que acordei foi a avó Ditinha, que ma ensinou. A avó dos primeiros colos, dos sapatinhos de malha, do totó com fios prateados, dos bolinhos de manteiga e da lata de rebuçados. A avó Ditinha da história do menino das empadas de algodão, contada no aconchego inesquecível dos lençóis de flanela, cuja sombra via pela luz do candeeiro de rua. A única que cortava as unhas em bico, a do "Maria P., que horas são?", cinco minutos depois da última vez, durante toda a tarde, a do pão com marmelada ou geleia no tabuleiro especial. A avó do sofá das flores e do tiro-liro-liro que estava lá em cima, da bolsinha belga usada dentro de casa, dos óculos de armação preta e dos passos pequenos. A avó Ditinha das tardes chuvosas de Outono, dos domingos em que a noite vinha depressa e a televisão me mostrava os Simpsons a um nível muito superior ao dos olhos. A que se sentava perto do relógio de pêndulo que alguém um dia havia de arranjar, enquanto os marretas dançavam seguros por arames, ou nos Riscos falavam de uma realidade que não percebia. O marco da minha mãe, a querida dos mais novos, o beijo que estava sempre pronto, o abraço quente e certo. O olhar sereno, a voz ligeiramente grave e igual a si mesma, as pernas fortes, a saia escura. O relógio preto e dourado, a mão a segurar a cabeça, as mãos à Pedro Abrunhosa na altura em que gritava por socorro porque estava apaixonado.
Assim era ela, com o seu aroma tão característico que ainda hoje posso sentir em pensamento. E tão diferente estava da última vez, naquela cama de lençóis brancos, que já não eram os seus de flanela, mas uns que nada lhe diziam. E que pequena estava, na semi-escuridão daquele quarto, onde tudo tinha a sua presença e nada era ela. Que mal lhe ficavam aqueles tubos que não me deixavam ver a sua cara como era. E que triste foi conseguir virar um pouquinho a cabeça e abrir os olhos só por momentos. Eu continuava de mão dada com a minha mãe, que era então muito maior do que eu, como que receando aquela avó que já não era a minha. O meu primo era a cópia da minha expressão, só que com uns óculos redondos e enormes. E o tio Zé lá lhe perguntou "Então dona Ditinha, sabe quem são?". Ela acenou, lentamente. E eu lamentei que já não fosse à Expo 98.

Fazes-me falta # 2




Não creio em nada que arranhe a superfície rasa da vida. Tu acreditavas em tudo, para o melhor e para o pior. O meu amor por ti atinge agora o auge. Já não possuo nada a que me agarrar. Nem o teu corpo, nem a minha razão, nem a vida, lá fora. As pessoas que te conheciam não nos servem agora. Lembram-se de ti como de uma morta. Inventam-te. Fazes-me falta. Não te consigo inventar.

Inês Pedrosa, in "Fazes-me falta"

Confissão


Pode parecer ridículo, sobretudo para quem nunca esteve em vias de perder alguém próximo... Mas quando durante algum tempo tenho pouca paciência para uma pessoa que me é próxima, sinto uma culpa inexplicável e um medo terrível que ela morra. De há uma semana para cá estou assim, com um receio que me aterroriza. Espero que não passe disso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Tristeza infantil - a minha dor


Nem sempre sou sensível ao ar triste das crianças, que tantas vezes sei ser apenas uma arma para obterem o que querem. Mas quando se trata mesmo de tristeza, daquela neblina cintilante que lhes cobre o olhar e o empurra para o chão, aí fico doente. Goste mais ou menos dela, seja conhecida ou desconhecida.
Há algumas semanas, naquele programa de crianças de domingo à noite da tvi, houve um menino que me partiu o coração. Na primeira gala disse que o pai estava no hospital e começou a chorar por causa disso, o que pelos vistos comoveu o país, que votou para que atingisse o segundo lugar. Na gala seguinte, já ninguém se lembrava que o pai estava no hospital e que ele estava triste por isso, porque nos comovemos muito facilmente mas temos memória curta, e o menino saiu. Passou uma semana em que ele se sentiu, com toda a certeza, feliz com o seu talento e eis que de repente se vê em queda livre. Claro que dói a qualquer um, ainda para mais a uma criança, que não conhece tão bem a derrota como um adulto. E foi vê-lo com aquela sombra de tristeza a trespassar-lhe a cara, quando percebeu que ele e outra tinham saído e não ter, de todos aqueles companheiros de cantoria uma palavra, uma carícia, um abraço. Os apresentadores viram que a outra menina chorava e socorreram-na, com abraços amigos e palavras de ânimo. Não foram capazes de virar a atenção para o menino que estava a um passo, calado e com o choro sufocado. Canonizaram toda a atenção para quem mostrava o que sentia. Isto dói-me, sim. Não só por ser uma criança numa situação especial, como por saber o que tantas vezes custa esconder o que se sente e, por isso, não receber uma palavra amiga.
Ontem à noite estava sozinha em casa e não tinha nada para fazer. Lá me sentei a ver uma novela de que toda a gente me fala. Agora devo estar destinada a isto: lá estava novamente uma criança a querer entrar num qualquer restaurante que tinha aberto recentemente, e cujo dono ele conhecia, e a não poder porque o dono o ignorou. E foi ver o ar derrotado daquele pequeno actor moreninho a mexer comigo até às lágrimas, que ontem as hormonas também ajudavam a saltar.
Vejo muito pouca televisão, mas parece que a solução é mesmo deixar de ver. Mexe de mais comigo ver crianças tristes, talvez porque já imagino como seria se fossem meus filhos. E é bom que isso demore, porque sei se isso lhes acontecer serei uma mãe doente.
Há três coisas que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Bolachas com amora


De repente vieram-me à cabeça as tardes de Verão da minha infância em que, debaixo de um calor abrasador, íamos apanhar rosas silvestres. E também aquelas em que apanhávamos amoras daquelas bem escurinhas, que deixavam as mãos pintadas e se alojavam debaixo das unhas pequenas. Andávamos de calçõezinhos ou vestidinho curto e percorríamos as redondezas, enquanto tentávamos evitar o melaço nas mãos. Em casa, a mãe já esperava por elas e punha-as todas num tacho com açúcar, com vista a uma deliciosa compota. E como tinham um alegre e suado sabor aquelas bolachas cobertas de púrpura!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Valsinha


Não queria faltar à minha palavra, mas teve de ser. Esta música é bonita de mais para ficar em espera mais tempo. É aquela de que um dia ouvi dizer:

Chico Buarque de Holanda escreveu uma música que eu gostaria de ter escrito.

É aquela de que eu digo que Chico Buarque de Holanda escreveu uma música que eu gostaria que tivesse sido escrita para mim.






Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

O amor em paz


Marco - Levou-me dez anos a superar, mas juro-te que acabou.
(...)
A Ângela e eu viajávamos muito. Sob o pretexto de escrever guias turísticos de locais exóticos, mas na verdade era para a afastar das drogas, para fugir de Madrid. A vida em Madrid era infernal, só nos dávamos bem nessas fugas. Após cinco anos de tentativas e sete guias turísticos trouxe-a para cá, para Lucena, para os pais dela. Que conseguiriam curá-la definitivamente da droga e de mim.


Lydia - Mas ainda gostavas dela.


Marco - Por isso chorava sempre que me emocionava, por não poder partilhá-lo com ela. Não há pior do que te separares de alguém que ainda amas.


Lydia - Que história tão triste.


Marco - O amor é a coisa mais triste do mundo quando acaba, diz uma canção de Jobim...



Eu amei
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
A razão de viver
E de amar em paz
Enão sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Eu não quero ser assim!


Depois de já ter falado ao telefone com a minha mãe eis que me liga o meu pai. Como estava a ter uma conversa bem mais interessante, não me apeteceu atender. E logo a seguir volta a ligar a mãe. Algo se passa...


- Sim, filha? O teu pai já te ligou, por que é que não atendeste? Já estávamos a ficar preocupados. O teu avô veio agora aqui contar-nos que uma senhora de 39 anos, que ia na rua de Santa Catarina, foi metida à força dentro de um carro por dois homens. Diz que eles tinham uma faca enorme e uma arma. Depois levaram-na para a mata e violaram-na. Por que é que não atendeste? É que o teu pai ficou logo visivelmente nervoso, já sabes como ele é. E eu também. Mas por que é que ele veio aqui agora contar-nos isto? Foi mesmo para me incomodar, já não vou dormir toda a noite. Já estávamos a pensar que tinhas saído por aí sozinha e te tinham levado. Tu vê lá se não sais, está bem? Não me preocupes.

- Oh mãe e então tu ligas-me para me dizeres isso?

- A culpa é do teu avô que vem aqui desinquietar-nos com estas coisas. Até estou com medo que dê alguma coisa ao teu pai... Vejo-o tão cansado.

(...)


Mas será que eu também vou ficar assim? É bom que isto fique aqui registado. Assim, quando eu resolver fazer filmes, por favor, lembrem-me de vir ler o que disse que não queria ser.

(Tão) Fácil de entender

Juro que nos próximos tempos não ponho mais nenhum vídeo, mas hoje é inevitável. Há pouco voltei a uma conversa que me lembrou tanto esta música... Mas já passou!
"Agora eu já sei o que é sentir o teu amor"

terça-feira, 12 de maio de 2009

É a vida


Ainda não eram seis horas quando abri os olhos e percebi que lá fora a chuva insistia em cair. Às sete já tinha oferecido a minha mão e dois flocos de neve ao companheiro do lado. Às oito víamos o Douro enquanto imaginava uma noite que era para ser passada na Foz. Depois veio a última discussão, a certeza de que consigo fazer bem, a última leitura que parece querer tirar força. Veio o controlo lacrimal, o sorriso breve, e a lamúria interior contrastante com a luminosidade do que nos rodeava.
Deu-se o abraço final que foi o primeiro de uma nova fase. O primeiro beijo, que foi o último até ao próximo mês, ou quem sabe até depois. Fizemos o caminho que sempre queremos prolongar e continuámos a cruzar o olhar entre os vidros que deixaram de ser transparentes para dizerem "ana" e nos dificultarem a visão. O corredor chegou ao fim e vieram as escadas. Não soube quando chegaste ao fim, porque quando iam a meio vi que a tua cabeça desaparecia. Chegaram as eternas mensagens de que não podemos abdicar nestes dias e que me enchem a caixa de mensagens. Aproximaram-se as últimas, em que sentimos que tudo o que vai cá dentro tem de ser exposto com ansiosa emoção, como se percebessemos que a distância pode não ser momentânea, mas eterna. E eu continuo parada, com riscas verdes e a "ana" a separarem-me do horizonte, enquanto uma mancha amarela,azul e branca se difunde nele e te faz voar.



sábado, 2 de maio de 2009

Oh mensageiras noites de Verão!



Não precisa mudar
Vou me adaptar ao seu jeito
Seus costumes, seus defeitos
Seu ciúme, suas caras
Pra que mudá-las?

Não precisa mudar
Vou saber fazer o seu jogo
Fazer tudo do seu gosto
Sem deixar nenhuma mágoa
Sem cobrar nada

Se eu sei que no final fica tudo bem
A gente se ajeita numa cama pequena
Te faço um poema e te cubro de amor

Então você adormece
Meu coração enobrece
E a gente sempre se esquece
De tudo o que passou

Entupida

Hoje é esta a única publicação própria. As mãos não escrevem o que o coração aperta e a boca cala. Cá estarei quando o Pedacinho voltar e me abraçar a alma.

Fazes-me falta


O teu código moral burocratizou-se; havia alíneas para todas as infracções. E mesmo as maiores passaram a ter pouco valor. Aprendeste que é mínima a distância entre um deslize e um crime. Que todos podemos, num dado instante, escorregar para o negro. Uma bebida, duas, um bêbado, um assassino; um charro, um cheiro de coca, uma dependência, um ladrão. A vida tornava-se assim. Incontida. Demasiado simples e complexa. Música em crescendo, ensurdecedora. Sem qualquer verdade de partida.



in "Fazes-me falta", Inês Pedrosa


De verdade


Domingo de chuva. Conheces-me - trabalho espojado no tapete. As armadilhas da memória. Tu no sofá, um <> acima. Lendo o jornal, preguiçosa e marota, ave de rapina abençoada por este lagarto de sangue já frescote. (...) Os amigos à espera e nós contentes por isso, que bom desejá-los pela companhia e não para disfarçarem silêncios fúnebres que tivessem invadido a relação. (...) O restaurante. A malta. O dono, ele próprio velho amigo. E, como de costume, eu dava a alma à tua palmatória - de tão saciado morria de fome!



in "O amor é", Júlio Machado Vaz