Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 20 de maio de 2009

Avó Ditinha


E hoje, enquanto ainda dormia, na minha barulhenta rua cantava-se:

Oh comadre, rica comadre
Gosto muito da sua pequena
É bonita, apresenta-se bem
E o melhor que ela tem é a face morena!

E a primeira pessoa que me passou pela cabeça assim que acordei foi a avó Ditinha, que ma ensinou. A avó dos primeiros colos, dos sapatinhos de malha, do totó com fios prateados, dos bolinhos de manteiga e da lata de rebuçados. A avó Ditinha da história do menino das empadas de algodão, contada no aconchego inesquecível dos lençóis de flanela, cuja sombra via pela luz do candeeiro de rua. A única que cortava as unhas em bico, a do "Maria P., que horas são?", cinco minutos depois da última vez, durante toda a tarde, a do pão com marmelada ou geleia no tabuleiro especial. A avó do sofá das flores e do tiro-liro-liro que estava lá em cima, da bolsinha belga usada dentro de casa, dos óculos de armação preta e dos passos pequenos. A avó Ditinha das tardes chuvosas de Outono, dos domingos em que a noite vinha depressa e a televisão me mostrava os Simpsons a um nível muito superior ao dos olhos. A que se sentava perto do relógio de pêndulo que alguém um dia havia de arranjar, enquanto os marretas dançavam seguros por arames, ou nos Riscos falavam de uma realidade que não percebia. O marco da minha mãe, a querida dos mais novos, o beijo que estava sempre pronto, o abraço quente e certo. O olhar sereno, a voz ligeiramente grave e igual a si mesma, as pernas fortes, a saia escura. O relógio preto e dourado, a mão a segurar a cabeça, as mãos à Pedro Abrunhosa na altura em que gritava por socorro porque estava apaixonado.
Assim era ela, com o seu aroma tão característico que ainda hoje posso sentir em pensamento. E tão diferente estava da última vez, naquela cama de lençóis brancos, que já não eram os seus de flanela, mas uns que nada lhe diziam. E que pequena estava, na semi-escuridão daquele quarto, onde tudo tinha a sua presença e nada era ela. Que mal lhe ficavam aqueles tubos que não me deixavam ver a sua cara como era. E que triste foi conseguir virar um pouquinho a cabeça e abrir os olhos só por momentos. Eu continuava de mão dada com a minha mãe, que era então muito maior do que eu, como que receando aquela avó que já não era a minha. O meu primo era a cópia da minha expressão, só que com uns óculos redondos e enormes. E o tio Zé lá lhe perguntou "Então dona Ditinha, sabe quem são?". Ela acenou, lentamente. E eu lamentei que já não fosse à Expo 98.

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