Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




sábado, 27 de fevereiro de 2010

Grito

Silêncio!

Do silêncio faço um grito
O corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco.


De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido.


Ao céu!
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.


E eu,
A quem o sol esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora.


Solidão!
Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura.


Ai, solidão
Quem fora escorpião
Ai! solidão
E se mordera a cabeça!


Adeus
Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede.

Adeus,
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura.


(Amália Rodrigues)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ontem a frase que me saiu mais do fundo foi "estou cansada de pensar em toda a gente antes de pensar em mim". Hoje volto a ter a mesma certeza. Para quer largar tudo enquanto penso apenas nos outros? E por que insisto em cair sempre nos mesmos erros, mesmo sabendo de antemão que vou sair magoada?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A história do menino e do grão de açúcar que o ensinou a saborear



Sabes menino, amar é partilhar tudo. A alegria, a tristeza, a dor. É estar bem quando o outro está bem, é estar mal quando o outro está. Mesmo que tantas e tantas vezes não se saiba o porquê. Eu hoje estou assim. O meu coração tornou-se pequenino, pequenino. Não mais do que um grão de açúcar. E digo açúcar porque, como é teu também, está cheio de doçura. Uma doçura que tem de te dar energia quando estiveres a desfalecer.
Lembra-te de todos os obstáculos por que já passámos. E lembra-te a quantos já sucumbimos. Lembra-te por quantos já passaste. Não conseguiste sempre superá-los? Desta vez vai tudo acontecer da mesma forma.
Hoje queria apenas poder ter estado aí para te receber de braços abertos. Sempre sonhei que pudesse acontecer, mas por algum motivo teve de ser assim. Tratava de ti como nunca tratei de ninguém. Amparava-te da queda, sentava-te na cama para conversarmos, fazia-te um chá e adormecia-te. Nada nem ninguém se intrometeria. Depois acordavas, eu dava-te um abraço sem fim e obrigava-te a sonhar, que não há nada mais bonito em ti do que a forma como acreditas nos sonhos.
Hoje, mesmo estando aqui, o meu grão de açúcar está contigo. Guarda-o num sítio fresco e seco e quando sentires que queres, saboreia-o. Vai valer a pena.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A ferro e fogo


Se há coisa que odeio é andar atormentada. Seja por que for. O que é certo é que ando, às vezes nem sei bem porquê, mas enquanto penso isto já me lembrei. Estou cansada. E este cansaço só me leva a querer esclarecer tudo de uma vez por todas. Não pode haver mais intrigas, mais desconfianças, mais segredos. Ou é isto ou não vale a pena insistir.

A recaída acontece bastantes vezes.

Fernando Alvim


Nota: todo o tipo de recaídas.
A propósito disto tenho ainda a dizer que há quem não saiba procurar sem ser descoberto. Era a conversa com a A. no outro dia. Há aqueles que fazem e ninguém desconfia, mesmo que seja com conhecidos e os que fazem e é fácil descobrir, mesmo que com desconhecidos. Nem todos nascemos para ser bons traidores. E nem todos nascemos burros.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Oh God!


Se há coisa que gosto é de observar pessoas. Mais do que conhecê-las, falar ou até privar, gosto de as observar e imaginar. Adoro, portanto, locais cheios de pessoas e de encontros. Aeroportos, estações de comboios, transportes públicos são um mundo a que adoro pertencer. É inevitável estar num sítio destes sem magicar acerca de quem me rodeia. De rir ou até mesmo chorar com quem me cruzo. Um dia já fomos ou seremos nós, em tantas daquelas situações.
Hoje entrei no metro e sentei-me entre dois casais. Um silencioso, no qual nem reparei e um do qual não pude despregar o olhar. Um casal que se via que estava a começar a relação, sem confiança e sem qualquer tipo de química. Ele, muito querido e a tentar agradá-la ao máximo. Ela nem o conseguia olhar nos olhos. Ele punha-lhe o braço por cima do ombro, enquanto lhe tentava arrancar uma palavra. Brincava com a alça da mal dela, típico de quem não sabe o que há-de fazer em tal situação de constrangimento mútuo. Ela olhava sempre para o lado, com cara de quem apenas queria chegar ao destino e esquecer o companheiro de viagem. Até que ele pergunta "por que é que te chateias sempre comigo?". Num esgar de pena (palavra feia, eu sei), responde-lhe com doçura que "não é sempre, é só de vez em quándo".
O rapaz era o típico gordinho esforçado, que a fazia perder-se no seu abraço quando não queria mais do que mantê-la perto. Deve ter lutado bastante até ali. Ela, a típica boa rapariga que dá uma chance a quem corre muito atrás, num acto de bondade, na esperança de que desta vez possa mesmo dar certo. Mas não deu. Ela já não aguenta tê-lo perto e não sabe como sair deste filme onde entrou arrastada. Lamento muito por ele, mas não menos por ela. Afinal qual de nós nunca esteve numa situação destas, da qual não sabe como esquivar-se sem mágoa?
Relembro que isto não passa de uma especulação minha, eu que em todos os que observo tento encontrar um pouco de mim. Que me perdoem os lesados, mesmo que não saibam. Mas como diz a minha querida Cidália:
Oh God make me good, but not yet.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quando decidiste passear

Distanciaste-te num dia já ido e não sei o que fazer contigo. Talvez não te consiga ter como antes, numa roda viva de emoções que nos assolam o peito. Fugiste durante a noite, ainda de meias, saindo pela porta que não tinha trancado, pois saberia que mais cedo ou mais tarde a quererias usar. Nunca te proibi do que quer que fosse. Se é ao frio que sorris, é ao frio que te deixo. Não te chamarei mais para o calor da minha cama, nem usarei a chave da tua porta para entrar e ocupar a tua. Hoje estás ao teu sabor. Amanhã estarás nas tuas mãos.

Momento

Já é do conhecimento geral que os últimos dias têm sido absolutamente maçadores. Este não foi excepção, ao ponto de poder afirmar que aqui está o momento alto do dia.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Frase do dia


Quem não tem em casa, procura fora.


(Eu sei-o, nem precisava de relembrar.)

Noite dentro


Ela fala da tristeza que sentiu quando me viu em desespero. Os meus olhos ficam rasos de água. Ela relembra os últimos dias juntos, a última noite e o primeiro dia de distância. Relembra o sofrimento, a falta de apoio, o telefonema à mãe. E diz o que eu sei mas não queria que passasse de um segredo: que com o passar do tempo passou a custar mais. Os nossos olhos ficam rasos de água.
Ela apoderou-se da minha cabeça e tocou-me no fundo. Ultrapassou a barreira do secretismo sem qualquer pudor. E eu não consigo dizer se gostei. Lembrou-me de tudo o que não soube na altura certa, não me criticando pela minha ingenuidade. No fundo ela sabe que foi carência. Que foi resultado de abandono. Bem sabe que poderia acontecer no dia de hoje se eu ainda me soubesse dar a alguém. No fim vê que o passado ainda me dói. E eu que sou tão fraca... Quase se arrepende de me ter feito reviver, tantos meses depois de o meu cérebro ter encerrado para férias.
Estou mais leve, mesmo assim. Não me reconheço na lembrança do que fui, nem sei se um dia me voltarei a encontrar no que sobrar de mim. Só sei que me sinto bem no ruído antigo e no extravazar da agonia.

sábado, 6 de fevereiro de 2010


Como eu gostava de me conseguir realizar e estar em paz comigo. Porque com o mundo quase que já consigo. Isto não anda a correr bem. Ou vem uma boa reviravolta, ou vou fechar-me para balanço.



Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã
E eu tinha tantos planos p'ra depois

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Certezas#2

Sempre gostei dela e cada vez gosto mais.


(Nicolau, casado há 48 anos)
Por vezes questiono-me acerca de quem serei eu no futuro. Olho para trás, recordo passos que dei de mão dada em direcção ao abismo e sei que não os quero repetir. Ao mesmo tempo, receio arduamente que a fragilidade me tolde os movimentos. Quem serei eu, afinal? Que erros voltarei a cometer? Não quero voltar a cegar. Apenas saber dizer "basta", como devia ter feito tantas e tantas vezes.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato Faria


1932-2010



Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"Mais uma volta, mais uma viagem"

Tentativa de agradecimento


É sempre bom reencontrar amigos. Mesmo que não os vejamos há menos de um mês, há alturas em que o coração aquece, porque a memória se aviva. Foi o que me aconteceu contigo, quando te encontrei noutro dia. Talvez por te ver numa situação tão parecida com outras antigas, lembrei-me de todo o apoio que me deste em diversas situações em que poucos se lembraram de mim como tu. De todos os abraços que me deste na cumplicidade de noites normais, das lágrimas que uma única vez me viste escorregar pela cara, dos telefonemas que me fizeste para que preparasse o coração e trabalhasse o espíritio, das viagens em que partilhámos o lugar e das conversas que tivemos em cima da minha cama, no dia em que definitivamente arrumei as malas e mudei de vida, numa decisão que tanto me custou e só foi possível por ter ao meu lado pessoas como tu.
No dia-a-dia lembramo-nos das pessoas e sabemos que gostamos delas e, por vezes, nem sabemos ao certo porquê. Hoje lembrei-me da gratidão que te tenho. E voltei a reviver aquelas noites em que sozinhas deambulámos por aí, em relâmpagos de loucura e alegria, só possíveis quando a confiança é máxima e não há medo de julgamentos perigosos.
Hoje gostava de estar contigo para te acolher como tantas vezes já fizeste comigo, numa dádiva desprovida de interesse. Sei o tamanho do nó que te ata o estômago e conheço a náusea que se apoderou de ti. Gostava que me lesses, para te poder aquecer um bocadinho a alma, libertando-te desses tremeliques que a vida nos dá. Mesmo que nem falemos, garanto-te que não estarás só.


Quando o sol chegou aos subúrbios da cidade
Anunciando mais um dia igual aos outros
Ele acordou e pressentiu
Que hoje o seu dia ia ser diferente
Há coisas na vida que eu não quero para já. Porém, não gosto que falem delas com horror, como se de uma morte precoce se tratasse.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Corta



Adoro aquelas horas de conversa em que se volta a tocar em todos os assuntos enclausurados há meses. Recordamos, revivemos e rimos desmesuradamente com alguns deles. Gozamo-nos de outros, num prazer só possível quando envolvido em secretismo. O que seria de nós sem este último? Fazemos uma avaliação final de tudo e a vontade de voltar ao passado salta para fora do peito e da boca. Fica prometido um filme, que retratará tanto desta aventura misteriosa. E, para muitos, nunca passará disso mesmo.

Olá outra vez!


Foi numa tarde quente de Junho que te vi pela primeira vez, Leonor. Eu era a única prima que te podia ir conhecer ao hospital, tal como tinha feito com a tua irmã, e fui. Já não me lembro ao certo das tuas feições de recém-nascida, mas sei que imediatamente tive uma grande afeição por ti. Todas as semanas te pegava um bocadinho ao colo. As nossas mães sempre souberam o quanto eu queria, e lá te confiavam nos meus braços num qualquer sofá de casa da avó. Foste crescendo e fui continuando a acompanhar-te. Comias muitas vezes pela minha mão, enquanto cantava para ti ou te testava com as habituais perguntas infantis.
Os teus caracóis cresceram e quando corrias eles voavam ao sabor do vento. Gostava do teu sorriso genuíno, sabes? Dava-me alegria. Uma alegria que não tinha sentido até então e que penso que ainda não voltei a sentir.
Até que o teu pai fez quarenta anos. Lá fomos todos festejar, como tantas vezes fazemos. Mas tu não eras tu. Já de noite, ao colo da Rosinha no teu pijama beje, estavas pálida e molengona. Ninguém ligou muito, afinal qual de nós nunca tinha estado febril? Dois dias depois, faz hoje onze anos, soube que nos tinhas dito adeus. Disse-mo o meu pai quando me foi buscar à escola. E eu não te disse adeus. Não pude brincar contigo uma última vez nem dar-te o colo da despedida. Foste assim, de repente, depois da corrida infernal e vã que os teus pais tentaram ganhar e que afinal não passou de um frustrante falhanço.
Não foste sem uma homenagem à tua altura, já que todos te quiseram acompanhar. E eu, mesmo longe de tudo isso, sempre rezei por ti e me aconselhei, mesmo sendo tu tão pequena e inocente. Gosto de saber que não me esqueceste. Também eu todos os dias me lembro de ti e tenho curiosidade em conhecer a mulher que te ias tornar.



Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte...