
Ela fala da tristeza que sentiu quando me viu em desespero. Os meus olhos ficam rasos de água. Ela relembra os últimos dias juntos, a última noite e o primeiro dia de distância. Relembra o sofrimento, a falta de apoio, o telefonema à mãe. E diz o que eu sei mas não queria que passasse de um segredo: que com o passar do tempo passou a custar mais. Os nossos olhos ficam rasos de água.
Ela apoderou-se da minha cabeça e tocou-me no fundo. Ultrapassou a barreira do secretismo sem qualquer pudor. E eu não consigo dizer se gostei. Lembrou-me de tudo o que não soube na altura certa, não me criticando pela minha ingenuidade. No fundo ela sabe que foi carência. Que foi resultado de abandono. Bem sabe que poderia acontecer no dia de hoje se eu ainda me soubesse dar a alguém. No fim vê que o passado ainda me dói. E eu que sou tão fraca... Quase se arrepende de me ter feito reviver, tantos meses depois de o meu cérebro ter encerrado para férias.
Estou mais leve, mesmo assim. Não me reconheço na lembrança do que fui, nem sei se um dia me voltarei a encontrar no que sobrar de mim. Só sei que me sinto bem no ruído antigo e no extravazar da agonia.

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