Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Esta estória de encantar


Escrevo uma carta para matar a saudade. Falo da vida, de sentimentos, planos e tantos sonhos que me (pre)enchem. Tento mostrar-te que estou próxima, tão próxima que podemos tocar o mesmo sítio. Podemos sentir o mesmo cheiro. Talvez tu até o consigas mais intensamente. É essa a vantagem das cartas, são mais do que meras letras conjugadas logicamente. Mas é sempre difícil acabá-la. É como uma nova despedida. E se custam as despedidas!
Quando lemos, se gostamos muito do texto, temos tendência a avançar sofregamente. No entanto, isso aproxima-nos do fim. E eu quero que o fim esteja longe. Seja o fim da página, que nos aproxima da seguinte a que não sei se quero chegar já, seja o fim do livro. Ainda temos de passar alguns capítulos. Estamos numa fase de impasse que ainda necessita de muitas ideias, muitas explicações, descobertas e outras que tais. No fim, o mau morre sempre, os que estiveram a mais fogem para longe sem voltar a dar sinais de vida e os príncipes ficam juntos e felizes para sempre. Não pode ser ridículo continuar a acreditar em estórias de encantar.



Nos desenhos animados
Eu já conheço o fim
O bem abre caminho
A golpe de espadachim
E o príncipe encantado
Volta sempre para mim

Quando chegar o final
Já podemos mudar de canal
Nos desenhos animados
É raro chover
E nunca, quase nunca acaba mal
By the power of Greyskull

Aqui para nós que ninguém nos ouve




Um destes dias, numa banal conversa de café em que estava presente uma assistente social, vieram à baila temas infelizmente ainda tão banais na nossa sociedade, como violência doméstica e abuso sexual. É incrível a quantidade de pessoas que ainda vive esta realidade. Custa imenso ver que em certos cenários ainda se encara isso como normal, mas mais do que isso, custa saber de tanta gente que se torna uma pessoa completamente diferente daquilo que era e que altera completamente a sua vida.
Tenho uma amiga que passou por uma situação dessas durante a infância e no início da adolescência. Sempre foi uma miúda feliz, embora já em criança soubesse que algo estranho se passava. Mas foi por volta dos onze anos, quando se começa a ter noção da sexualidade, que realmente passou pela situação mais clara. Aí, finalmente, teve noção da anormalidade da situação. Passou a ver o sexo masculino com outros olhos e nos primeiros tempos a ter repulsa por ele. Pouco mais tarde, não sei se pelo período em que entrava, se pelo que tinha passado, começou a ser completamente instável emocionalmente. Apaixonava-se a toda a hora, numa busca incessante de amor, mas assim que tinha o que queria deixava o rapaz. Pouco lhe interessava que fosse boa ou má pessoa, que sofresse ou não. O importante era que ele gostasse dela e que ela depois o deixasse, voltando ao mesmo ciclo vicioso.
Até que chegou o dia em que iniciou um namoro sério e soube realmente o que era amar alguém. E aí veio o pior: nunca o quis perder, mas não sabia estar na relação. Tinha uma insegurança enorme perante todos os que se aproximavam do casal. Não conseguia confiar nele, mas pior do que isso, não confiava nela, na sua capacidade de o manter consigo. Vieram inúmeras discussões, muito sofrimento de ambas as partes. Ele nunca se apercebeu de nada, ela nunca pôde contar o que realmente se passava. Passaram por cima, viveram momentos muito felizes, momentos dramáticos e hoje continuam juntos.
No entanto, ela continua com uma auto-estima baixíssima, mesmo que tantas vezes tente transparecer o contrário e quase nunca se deixe ir abaixo à frente de quem quer que seja. Mas a quem a acompanha ao longo da vida, custa ver a degradação dos momentos por que passa. Não acredita em ninguém que se aproxime dela, tem um medo permanente e indefinido de tudo, desde situações tão banais como sair à rua, enfrentar situações que não domine totalmente, encarar pessoas que não a fazem sentir à vontade ou expor resultados publicamente. Tenta fugir de tudo isto e quando não pode tem verdadeiras crises de ansiedade.
Vive, portanto, numa instabilidade total. Aprisionada por cordas que a prendem ao passado, não consegue andar para a frente. Estabeleceu uma relação de quase dependência com o namorado, sem o qual se sente à deriva. Chegou a dizer-me que sem ele não sabe se é capaz de continuar. Mesmo que ele lhe possa fazer realmente mal, mesmo que a desiluda, que se torne diferente do que foi, não consegue soltar-se, não consegue dizer “basta!”, tamanha é a necessidade de protecção, atenção e afecto. Receio, por ela, o evoluir de tudo isto. Torço por que tudo se encaminhe da melhor forma e num acto de fraqueza não vacile. Diz-se por aí que tudo o que nos acontece é por bem. Cá para nós que ninguém nos ouve, eu prefiro esperar para ver.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Falta de ar



Complicado, complicado é sofrer uma alteração hormonal, podendo juntar-se o facto de me aproximar de um longo dia que não quero que chegue. Quando numa altura assim, sem querer, se põe a música certa, que dá vontade de cantar cada pedacinho da letra, que sei de trás para a frente e da frente para trás, que me faz regredir meia dúzia de anos e ver dias azuis e amarelos, que me lembram a alegria da presença e a tristeza da partida, ainda que numa realidade alheia à de hoje em dia, aí temos o culminar de tudo o que tem estado cá dentro e num acto de coragem ou medo (quem saberá?) não tenho querido soltar. Escancaro a porta desse mundo quase obscuro que tanto me atemoriza, ao mesmo tempo que rio e pela boca me sai "o ser humano é o meu amor, de músculos, de carne e osso, pele e cor", numa mistura de euforia pelo momento que vivo e ansiedade pelo que aí virá. Assim vivo, num turbilhão de emoções extravazadas apenas no abraço amigo.

Ao sol

Eu só queria despir-nos
Como se tira habilmente a seda aos pêssegos
E nus adormecermos
Sem saber quem somos
Sem jogos aos ombros
Que vêm de pequenos
Pelo faro, pelo poros
Pelo sono dos cabelos
Pelo estalinho dos dedos


Joaquim Castro Caldas

sábado, 19 de setembro de 2009

Há uma voz que se entranha


Um pouco antes das sete da manhã de sábado, toca o telefone. Estranho. Ou não fosse um dia tão diferente na semelhança de tantos outros. Consigo levantar-me, depois de uma hora e pouco de sono, simplesmente porque o motivo tem o tamanho do mundo. E não me arrependo, nem do cansaço, nem do nó no estômago, nem do enjoo, nem mesmo do soluço aprisionado no peito. Apenas lamento tê-lo deixado escapar pela frincha que a porta entreaberta fazia adivinhar. Valeu a pena. E, mais tarde, quando a porta volta a teimar em abrir-se, começa bem baixinho uma voz quase que a sussurrar (ou talvez o soluço me tenha ensurdecido).






E funciona assim mesmo.



When you're down and troubled
And you need some loving care
And nothing, nothing is going right
Close your eyes and think of me
And soon I will be there
To brighten up even your darkest night

Dai-me Senhor serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar, coragem para modificar as que eu puder e sabedoria para distinguir as duas.