Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aqui para nós que ninguém nos ouve




Um destes dias, numa banal conversa de café em que estava presente uma assistente social, vieram à baila temas infelizmente ainda tão banais na nossa sociedade, como violência doméstica e abuso sexual. É incrível a quantidade de pessoas que ainda vive esta realidade. Custa imenso ver que em certos cenários ainda se encara isso como normal, mas mais do que isso, custa saber de tanta gente que se torna uma pessoa completamente diferente daquilo que era e que altera completamente a sua vida.
Tenho uma amiga que passou por uma situação dessas durante a infância e no início da adolescência. Sempre foi uma miúda feliz, embora já em criança soubesse que algo estranho se passava. Mas foi por volta dos onze anos, quando se começa a ter noção da sexualidade, que realmente passou pela situação mais clara. Aí, finalmente, teve noção da anormalidade da situação. Passou a ver o sexo masculino com outros olhos e nos primeiros tempos a ter repulsa por ele. Pouco mais tarde, não sei se pelo período em que entrava, se pelo que tinha passado, começou a ser completamente instável emocionalmente. Apaixonava-se a toda a hora, numa busca incessante de amor, mas assim que tinha o que queria deixava o rapaz. Pouco lhe interessava que fosse boa ou má pessoa, que sofresse ou não. O importante era que ele gostasse dela e que ela depois o deixasse, voltando ao mesmo ciclo vicioso.
Até que chegou o dia em que iniciou um namoro sério e soube realmente o que era amar alguém. E aí veio o pior: nunca o quis perder, mas não sabia estar na relação. Tinha uma insegurança enorme perante todos os que se aproximavam do casal. Não conseguia confiar nele, mas pior do que isso, não confiava nela, na sua capacidade de o manter consigo. Vieram inúmeras discussões, muito sofrimento de ambas as partes. Ele nunca se apercebeu de nada, ela nunca pôde contar o que realmente se passava. Passaram por cima, viveram momentos muito felizes, momentos dramáticos e hoje continuam juntos.
No entanto, ela continua com uma auto-estima baixíssima, mesmo que tantas vezes tente transparecer o contrário e quase nunca se deixe ir abaixo à frente de quem quer que seja. Mas a quem a acompanha ao longo da vida, custa ver a degradação dos momentos por que passa. Não acredita em ninguém que se aproxime dela, tem um medo permanente e indefinido de tudo, desde situações tão banais como sair à rua, enfrentar situações que não domine totalmente, encarar pessoas que não a fazem sentir à vontade ou expor resultados publicamente. Tenta fugir de tudo isto e quando não pode tem verdadeiras crises de ansiedade.
Vive, portanto, numa instabilidade total. Aprisionada por cordas que a prendem ao passado, não consegue andar para a frente. Estabeleceu uma relação de quase dependência com o namorado, sem o qual se sente à deriva. Chegou a dizer-me que sem ele não sabe se é capaz de continuar. Mesmo que ele lhe possa fazer realmente mal, mesmo que a desiluda, que se torne diferente do que foi, não consegue soltar-se, não consegue dizer “basta!”, tamanha é a necessidade de protecção, atenção e afecto. Receio, por ela, o evoluir de tudo isto. Torço por que tudo se encaminhe da melhor forma e num acto de fraqueza não vacile. Diz-se por aí que tudo o que nos acontece é por bem. Cá para nós que ninguém nos ouve, eu prefiro esperar para ver.

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