Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O concerto (que será) da minha vida


Eu até nem nunca fui grande apreciadora de música clássica. Só gostava das músicas que dançava, daí a crescente paixão por Tchaikovsky. Com o passar dos anos, houve apenas mais um compositor por que me apaixonei e que talvez tenha superado o anterior: Johann Strauss. Foi a partir da música dele que surgiu a minha grande vontade de conhecer Viena em toda a sua essência. A Viena antiga dos grandes génios, das maiores belezas e dos ainda maiores amores. Sonhei durante anos percorrer aquela cidade de lés e lés inspirando-lhe cada recanto o mais profundamente que conseguisse.
Falta-me, neste momento, um último pormenor: um concerto de ano novo na ópera. Sonho entrar por aquelas portas de uma imponência inexplicável na que um dia será a minha melhor toillete, de mão dada. Sentar-me aguardando o concerto, com uma taquicardia típica de quem vai actuar num acto único na vida. Quero absorver o primeiro som, deixando-me ir na sua leveza profunda e aproveitar cada segundo como se do último se tratasse. Durante An der schönen blauen Donau não poderei evitar um lágrima e na final Radetzky March baterei palmas até que o cansaço se apodere de mim.








Borboleta





Tu és tu sempre que tu és
És mesmo tu quando pensas que és outra coisa
E tu pensas que não mas tu és mesmo bom
A ser sempre quem
és

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Luís Bernardo

Um dia quero ter um filho chamado Luís Bernardo. Quero que seja o primeiro, porque um guerreiro tem de vir antes, para proteger os outros. De pescoço magro, negros olhos grandes e pestanudos, espero vê-lo a correr pelo campo e a chegar ao pé de mim com os primeiros arranhões que esta vida nos faz, com um abraço quente e genuíno, daqueles que nos enchem a alma e mesmo sendo fugazes parecem intermináveis. Quero arranjar-lhe a mochila de rapazinho no primeiro dia de escola e preparar a lancheira para a tarde, vê-lo da janela a andar de bicicleta, acompanhá-lo em todas as fases de mudança. Espero que ele experimente um pouco de tudo e saiba dizer não na altura certa, que tenha todas as oportunidades que tive e mais algumas. Quero que ele me diga que quer conhecer o mundo e tenha espírito aventureiro para o saber fazer, que namore com quem quiser tendo princípios com todas elas, que faça as loucuras saudáveis e que sofra os seus desgostos que o ajudarão a crescer, sabendo que terá sempre um colo à sua espera, tenha dez anos ou cinquenta. Espero vê-lo a escolher uma profissão que o realize, mesmo que todos lhe digam que não é a certa para ele. Terá oportunidade de errar, voltar atrás e acertar. Não ambiciono que digam que ele é alguém, porque já o será. E se não puder ser nada disto, que nós sonhamos mas cada um traça o seu próprio rumo, que seja pelo menos Luís Bernardo. Sem fins trágicos, que esses pertencem aos livros.

Li por aí, um dia destes




Os homens são incapazes de manter uma relação de amizade. Ou porque perdem o interesse sexual, ou porque o ganham. Mais dia, menos dia, mas acontece sempre.


Que acontece muitas vezes é verdade. Já o constatei inúmeras vezes, já me desiludi por tal incapacidade masculina. Só espero viver muitos anos e nos últimos poder dizer que há pelo menos um que é diferente.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Partilha a dois

Costuma dizer-se e já o disse aqui, que o melhor e o pior fica sempre para nós. É por isso que já partilhei os sítios a que fui e hei-de continuar essa partilha, hei-de mostrar fotografias, falar das pessoas, do clima, do cansaço, da felicidade e de tudo o resto. Mas os beijos que trocámos, os abraços apaixonados, as ruas que percorremos ansiosamente de mão dada, as burrices proclamadas, os bancos em que sentámos, os sufocos silenciosos, as noites de gomas e séries, os hamburgueres de enfartamento e saudade, os palácios que nos abriram os portões, o salão onde tudo recomeçou, os sonhos realizados, as danças no meio da rua e as lágrimas reprimidas e largadas, isso ninguém nos tira. Só a nós pertence e nunca, mas nunca poderá ser traduzido em palavras, quanto mais partilhado por outros.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

There is no other way





Well too much silence can be misleading
You're drifting I can hear it in the way that you're breathing
We don't really need to find reason
Cause out the same door that it came well it's leaving it's leaving
Leaving like a day that’s done and part of a season
Resolve is just a concept that's as dead as the leaves
But at least we can sleep, its all that we need
When we wake we will find
Our minds will be free to go to sleep


And know that if I knew
all of the answers I would
not hold them from you
know all of the things that i'd know 'cause
we told each other, there is no other way

Traição



De dia para dia odeio mais a traição. A mesquinhez que pressupõe, o egoísmo que acumula, o cheiro nauseabundo que traz, o desconforto permanente ou a desconfiança à flor da pele. Tudo nela tem um carácter nojento, repugnante e inesquecível. Se é assim nas (quase) faz-de-conta, como será nas verdadeiras, aquelas que nos sugam até ao tutano? Muito mais poderia dizer-se, mas o corpo começa a arrepiar-se e o estômago a contorcer-se. Fiquemos por aqui.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Porque hoje acordei assim



Como já aqui disse, não há nada que o tempo não resolva. Com pensamentos fortes, ideologias definidas e prioridades organizadas, todos chegamos onde queremos. E hoje, finalmente, cheguei.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ao contrário de hoje, há seis anos estava um dia cheio de sol, com aquele cheirinho a Outono. Eu trazia um vestido preto e dirigi-me a ti durante a tarde. Recomeçou assim, naquele abraço fugidio.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Modo: stand by



Hoje voltei a ouvir a grande história de amor dela. Cada vez que a ouço entendo melhor todas as defesas que adquiriu e que ainda hoje se vêem. Volta a dizer-me como gostou dele, como gostou da forma como ele a tratou. As músicas que a fazem lembrar aquela história, o actor com quem se parece, a forma como deve estar hoje. Fala-me da outra por quem foi trocada por pena, típico dos grandes romances em que a outra é sempre a coitadinha fragilizada que já fez um aborto e nunca mais foi a mesma. E era ela que tinha de ficar para segundo plano, porque era a mais forte. Não era da outra que gostava, era dela. E no entanto foi a outra que ficou com o prémio. Talvez nem imagine que durante tanto tempo ele procurou outra pessoa de quem dizia realmente gostar, quando já estavam casados. Ou talvez imagine e até já estejam separados. Ela hoje questiona-se que rumo terá seguido a vida dele, se terão ficado realmente juntos ou não. Sabe das filhas que tiveram, sem imaginar se conhecerei uma delas ou não. Vê muitas vezes a mãe e a irmã que era pequena e ainda reconhece. Já perguntou, mas ao fim de vinte e tal anos mudaram amizades, vidas, tudo.
Tudo tem um tempo certo para acontecer e ele perdeu a sua vez. Não sei se por cobardia ou por incapacidade masculina. O que é certo é que talvez tivessem tudo para dar certo se ele tivesse ido atrás de quem realmente gostava, em vez de se preocupar com apêndices que não trazem a verdadeira felicidade. É o erro de muitos homens (tantos!), que nos fazem sofrer desmesuradamente e na altura certa optam pela outra. Nós não nos conseguimos desligar e eles seguem a sua vida, que pode não ser feliz mas é confortável. Ela diz que demorou a desligar-se. Quando se tem de desligar e o amor permanece é difícil, por isso sempre nos disse para não nos agarrarmos de mais enquanto éramos novinhas. Com ela foi assim e superar foi provavelmente a pior prova por que passou.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Prolongamento



É após alguns anos de vivência que começamos a ter noção do valor das boas e más atitudes. E é aí que aprendemos que a mesma (má) atitude dói da primeira vez e dilacera da segunda. Como um objecto cortante a que sucumbimos de mansinho, uma almofada com que nos sufocam, uma corda que nos ata o estômago ou uma goteira que não pára de deitar enquanto tentamos dormir.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Partituras



Sei que estou a fazer disto quase a banda sonora escrita da minha vida, mas ela é assim mesmo. Com uma música associada a cada momento. Ou com vários momentos associados a músicas, não sei bem.
Entramos naquele carro preto que já assistiu a tantas vivências e vamos com um destino programado. É de noite, do lado direito temos o mar que nos acompanha fielmente, árvores altas e finas qual filme de Hollywood, uma estrada com traços históricos já esbatidos pelo sol e pelo tempo e morcegos caseiros que vão cruzando a escuridão. Lá dentro sente-se a confiança que só os corações quentes conhecem e a mistificação da realidade, só possível quando o que nos preenche ultrapassa a banalidade. A luz ao fundo já mostra a proximidade do corriqueiro. O passar do tempo que sempre nos escapa por entre os dedos. No entanto, naquele espaço sem limites estabelecidos, o corpo só sente o que o ouvido absorve.




But i threw you the obvious
just to see if there's more behind the eyes
of a fallen angel,
the eyes of a tragedy.
here i am expecting just a little bit
too much from the wounded.
but i see through it all
and see you.

A diferença na igualdade



Por vezes lembro-me das mensagens que enviava sem esperar resposta, num Dezembro alegre e frio. Lembro-me dos jantares e noites na Ribeira, que tinham de ser preenchidos com um pequeno texto que falava da voz ou do silêncio. Lembro-me de achar que do outro lado havia uma respiração sonolenta que não mudava com o som da fantasia. E da esperança que continuava a haver num futuro próximo, incerto e bonito. Dos receios recheados da quase certeza que a posição era a mesma e que portanto não havia mágoa plausível. Penso que foi mesmo assim. E depois igual. Tudo se repete como um ciclo vicioso sem explicação aparente e ao mesmo tempo tão facilmente explicável. Ressentimentos, para quê? Afinal somos ou não iguais?



Vejo o tempo que passou
Vejo o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Eu só queria



Eu só queria ser dona do tempo obrigando-o a passar quando não estás cá, impedindo-o de avançar quando és meu. Queria fazer do mundo um pequeno paraíso onde ninguém se intrometesse na vida de ninguém e onde todos nos completássemos sem prejuízo. Só queria que não precisássemos de chocolate ou comprimidos que nos aumentassem o nível de serotonina. Que os dias de sol nos aquecessem sempre e nos proporcionassem eternamente um ar saudável, que os de chuva tivessem sempre um beijo molhado e uma toalha que nos secasse, que os de trovoada tivessem um expectante abraço acolhedor, que os de nevoeiro não me impedissem de te ver, que os de neve tivessem uma lareira e os de granizo não tivessem mais do que cristais a embelezar a insignificância de um dia normal.
Queria que todos os jantares fossem barulhentos, que toda a gente tivesse alguém para passear de mão dada, que a vida fosse uma permanente película de um filme europeu, poder passar ao take seguinte só porque sim, desligar as câmaras e recolher-me ao sossego do lar. Só queria ter todos os dias o beijo lambuzado de uma criança, a leveza de um adolescente, a rotina de um adulto e a sabedoria de um velho. Queria passear na praia abandonada, recomeçar ao pé do mar, descontrair entre flores silvestres e reflectir entre livros poeirentos com páginas amareladas e já descoladas.
Queria todos os dias olhar pela janela aos quadradinhos e não querer sair, olhar para o espelho e ver o que sou, ver fotografias e poder regressar àquele momento. Queria dançar pela vida fora, numa incessante fuga do pano que se fecha, chutar recordações em direcção à baliza onde ficam guardadas ou criar uma banda sonora que reflectisse cada vivência e fosse intemporal. Só queria todos os dias merecer viver e ter consciência disso, não conhecer a insegurança e não saber o que significa solidão, aprender a perdoar quem merece e saber fazer essa distinção.
Queria que me ensinasses o caminho da felicidade, que o preenchêssemos de surpresas, que criássemos novos seres de que nos orgulhássemos e fossem ainda melhores do que nós, queria que envelhecêssemos lado a lado sem espinhos inultrapassáveis, sem rancores adormecidos, mágoas que se levantassem ou pensamentos que ofuscassem o olhar. Queria escrever história numa caligrafia de escola primária, que fizesses as ilustrações e no epílogo pudéssemos escrever que a missão estava cumprida.

Do que sabemos e não queríamos


Que as pessoas são quase todas iguais já sabemos. Que o ser humano age por instinto e é muitas vezes meramente carnal, também já. Mas descobrir que quem nos é próximo o é definitivamente, impede-nos de acreditar em muita coisa. Mesmo que não seja connosco. Mesmo que até há muito desconfiassemos, tentando acreditar que as cabras são elas. E depois calamos a boca. Fazer o quê, se não é nada connosco? A ignorância é a felicidade de tanta gente...