Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




sábado, 28 de fevereiro de 2009

L.

"Querida La Salet:

Esta é uma recordação do dia 2 de Agosto de 1997 - dia do casamento da Catarina e do Zé. A nossa família tem um anjo no céu, chamado L.
Da tua tia J."
A idade é um posto. E eu continuo a acreditar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


O Meu Amor Existe - Jorge Palma

Caí na minha teia

“Sabes La, parece que tinhas razão em tudo o que disseste. Afinal é tudo como tinhas previsto. Perdi uma grande oportunidade e agora que me estou a deixar levar está a ser complicado resistir. Não quero ser incorrecta com ninguém – e ainda não fui –, mas isto é tudo muito mais incontrolável do que eu imaginava. Finalmente começo a perceber-te amiga. Quem me dera que estivesses aqui comigo.”
La Salet

No mundo da droga



- Bom dia La Salet!
Meia hora depois na casa de banho:
- Tens o braço pisado. Estás bem? O que é que tens nos olhos? Não acredito, andaste à pancada? Fala comigo!
- Não foi nada, eu estou bem.
E ainda mais tarde.
- O que é que ela tem?
- Não sei, parece que está muito mal disposta. Não me diz o que é.
- Sinceramente. Esta rapariga às vezes tem umas atitudes que parece que se mete na droga.
Mas há lá substância mais psicotrópica do que a própria vida?


La Salet

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

La Salet e a fábrica de chocolate





A ti que chegas de mansinho num dia de coisa nenhuma e te instalas despreocupadamente. Tu que vens sem ter nada a ganhar e ainda assim decides ficar, suportas o meu silêncio pensativo, aceitas a grafonola que me faz vibrar e me puxas uma gargalhada puxando a tua.
A ti que me abres a porta porque toco à campainha ou simplesmente porque me sentes chegar, me olhas profundamente quando sou vulgar e me dás um abraço infinitamente banal.
Que enquanto o mundo for mundo é este o recheio que vem dentro do bombom de chocolate negro.



La Salet

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

De coração


- Meninas têm aqui um raminho para cada uma.
- Obrigada pai!
Sim, foi isto que de manhã se disse cá em casa. É deprimente, é um facto, mas foi o que aconteceu. O pai que nunca teve sensibilidade para perceber que poderíamos estar tristes, este ano achou que devia lembrar-se de nós. A razão que parece justificar tal atitude parece ser mesmo a pior: pena. E continuei a dormir.
- La Salet, toma uma prendinha. Cuidado para não partires.
Deixou o saco vermelho com um cartão a sair em cima da cama, enquanto eu ainda dormitava. Optei por continuar a dormir, o dia não parecia trazer nada de bom. Sonhei e acordei, quis continuar a dormir e sonhar. Uma hora. Duas. Três. Quatro. E abri os olhos, pareceu-me que estava na altura de enfrentar. Peguei no cartãozinho que espreitava do saco e ainda no escuro, com a visão turva li:



Se o amor quiser voltar

Se o amor quiser voltar
Que terei p’ra lhe contar
A tristeza das noites perdidas
Do tempo vivido em silêncio
Qual olhar lhe vai dizer
Que o adeus me faz morrer
E eu morri tantas vezes na vida
Mas se ele insistir
Mas se ele voltar
Aqui estou sempre a esperar…
Vinicius de Moraes


A tarde continuou igual a ela própria: trémula, nostálgica, saudosista e triste. Inexplicavelmente triste. Voltei a pegar no cartãozinho que se mostrava mais completo do que tinha percebido. A mãe tinha escrito o que não conseguia dizer.

Minha filha, meu tesouro,
Gosto de ti sempre e mais.
Minha ametista, meu ouro,
Viver sem ti é de mais.

E como me aliviou. Que felicidade me invadiu! Que tristeza pelas horas perdidas, o choro sufocado, a fala amargurada. E o dia continuou. Ainda que tenha dado para voltar a sorrir havia uma réstia de angústia cá dentro. Ah essa que se tornou na minha maior aliada!
Até que quando a noite já ia longa e se tratava de arrumar os enfeites temáticos do bar se dirigem às meninas com “o” coração para recordar. Obrigada K. Obrigada pai. Obrigada mãe. De coração.
La Salet

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Fantasia


“Fantasiar-te.” Tem a ver contigo. Dizer tudo e parecer que não dizes nada. Ou não dizeres nada e parecer que dizes tudo.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Voar de encontro


Depois de alguns anos juntos começa a tornar-se cliché festejar um dia como este. O “dia dos namorados” festejamos todas as vezes que podemos durante o ano - e não são tão poucas assim -, não necessitamos de um dia marcado no calendário por um comerciante qualquer para nos lembrarmos que nos temos. Ainda que possa não ser da forma mais acertada, todos os dias tenho o prazer de me lembrar que existimos assim (leia-se quase felizes), porque estamos juntos.
A distância de que tanto nos queixamos diariamente e que a todo o momento pedimos que seja reduzida vem também nesta altura fortalecer-nos, dando um novo ânimo à vida. Obriga-nos a ser mais originais na procura de momentos de intimidade felizes e ensina-nos a abolir o material. Os nossos presentes continuam a ser comprados mas já não interessa o que valem: interessa a felicidade que nos proporcionam. Compramos momentos? Talvez. E compramos prazer, ainda que possa soar mal.
No dia de hoje voltas a não estar aqui para o nosso habitual jantar rodeado de casais melosos que saíram porque hoje tem de ser. E é por isso que desta vez estou aqui, num momento de pura simplicidade e descontracção com o objectivo de te relembrar o que interessa nos verdadeiros namorados, não nos que o são dia 14 de Fevereiro. Pensei em tudo o que te podia oferecer à distância. Houve quem me lembrasse de um ridículo jantar por videoconferência. O maldito hi5 quer que te ofereça uma caixa de bombons virtual ou um morango com chocolate. Os testemunhos antigos mandam-me escrever-te uma carta. Eu escolhi três simples presentes: um post (nunca te dei nenhum neste dia), um pedacinho de luta e que por hoje vou ser diferente e não dizer que te amo. “Amo-te” vai ser a palavra mais dita por aí, logo não a quero trocada hoje. Só hoje. Se o nosso amor é diferente tem de sê-lo em todos os pequenos pormenores.
Hoje não quero uma carta, um chocolate ou uma flor. Hoje quero apenas sentir-te, sentir-me, sentir-nos, ser, querer, construir… E viver.
La Salet

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Lábios de silêncio


Bem-vindo à terra da pseudo apatia! Aqui fala-se muito do estado do país sem que alguém o consiga mudar, encaminhar ou sequer melhorar. Todos discutem a legalização do casamento homossexual quando ninguém sabe ainda como manter um dito normal. No café todos apresentam soluções entre dois cigarros enquanto evitam pensar no que verdadeiramente atormenta.
No meu mundo a revolta vai para além da crise que vivemos. A crise começa de dentro para fora. Ou será de fora para dentro? Começa nas palavras ou na ausência delas, nos actos ou na sua falha, no excesso de proximidade ou no exagero da distância, na falta de verdade e na transparência da mentira. A crise vem de mansinho e sempre no momento em que tudo parece um conto de fadas. Assim dói mais, ou não? Instala-se como uma bactéria e contagia tudo à volta. Faz chorar e falar, chorar e descarregar ou pior, chorar e calar.
Um dia vou saber integrar-me no novo mundo, aprender a ouvir muito e nunca, mas nunca, ter cócegas na garganta. A cabeça vai percorrer milhas e a ponte que a unia à boca ruir. O peito estará em sobressalto mas já a estrada no sentido sul-norte estará encerrada para obras permanentes. E aí sim, serei uma Senhora. Sim, quero dizer Senhora. Terei o que é indubitavelmente meu. E serei dona de uma solidão exterior acompanhada da parceria interior que só é possível quando temos lábios de silêncio.



La Salet

Faz falta


Faz falta a condução nocturna em direcção à terapia. A chegada, a conversa sentimental, a profundidade de pequenas aventuras, histórias de amizade, exploração da mente, partilha de cultura e medos. Faz falta sair da prisão e enfrentar a noite quase primaveril. Faz falta deixar de ver caras sisudas e sombras no olhar. Faz falta acabar a noite a rir porque sim. Faz falta voltar com a sensação de paz. Faz falta voltar tendo pensado sem pensar.



La Salet

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Perdoas-me?





Há alturas em que me questiono sobre a importância da verdade. Não sou daquele tipo de pessoas que gosta de saber toda a verdade conseguindo conviver bem com ela. Sou daquelas que a prefere saber quando é de facto importante e nunca de uma forma dura e crua. A verdade dói de mais. Dói por tempo indeterminado. E o tempo indeterminado é sempre de mais.
Na cidade onde vivia conheceu uma estrangeira com a qual começou uma relação. Ainda que não tivessem espelhada a paixão que vemos nas histórias de encantar tinham uma relação bonita, de companheirismo, compreensão e até de cumplicidade – difícil de ver nos dias de hoje. Ela voltou para o seu país de Leste e ele permanece à beira-mar.
Noutro dia uma colega de curso dele veio cá para o rever. É mais bonita do que a loirinha, mais interessante e até está perto. Saíram os dois em direcção a uma noite de festa na praia.
E ele volta sozinho no dia seguinte, como se nada se tivesse passado. A amiga é só isso mesmo, a loirinha continua a ser a pseudo-namorada com quem ele se dá bem e os amigos permanecem imutáveis. Pergunta a M.
- Então conta lá, como é que foi mesmo a noite?
- Queres saber se fui para a cama com ela? Não, não fui! – Contrapõe ele.
- Não achas que devias arranjar uma miúda de perto? Não sei, acho que te sentes sempre um bocado carente e escusavas de fazer a outra sofrer. Se bem que ela nem sabe de nada… Não estarias melhor com a tua amiga de ontem?
- Oh M. as coisas não são bem assim.
E a conversa ficou por ali. Mais tarde, depois da verdade apurada, vem a saber-se que de facto não foram mais longe porque ela não quis.
Aqui se põe a questão inicial: é preferível a verdade de um deslize ou a mentira por uma relação sólida? Somos humanos, erramos. Não teremos todos o direito de ter uma falha? Há até quem fale na possibilidade de depois de uma traição (uma única!) se perceber realmente o que é importante, estabelecer prioridades até então diferentes e ter uma relação muito melhor. E eu acho possível. É tristíssimo ser traído. Mas se não temos a capacidade de perdoar não será preferível por uma vez ser enganado? Não será preferível um engano por uma vida feliz a uma verdade por uma vida de solidão, dúvida ou descontrolo?
Eu, que não sou fanática, a mentira em prol de uma vida feliz. Deixo toda a verdade para quem consegue perdoar e até esquecer. Talvez o tempo me faça ver a vida de outra forma. Até lá opto por sofrer o estritamente necessário até ter a superior capacidade de perdão.
La Salet

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Capuccino com chocolate



Enquanto tomávamos um capuccino com raspas de chocolate.


La Salet - Adoro dissolver o chocolate. Sempre adorei a combinação chocolate-café.
A. - Oh! Tens coisas tão bonitas. Acho mesmo engraçado quando falas das coisas pequeninas que te dão gozo. São elas que fazem de ti uma pessoa que nem toda a gente tem oportunidade de conhecer, uma pessoa mais bonita e única.
La Salet - Estás a falar de quê?
A. - Do café e do chocolate. Das pipoquinhas. Do cheiro a Algarve.
La Salet - Ah! Que saudade desse cheiro! Já nem me lembrava que dizia isso... Nunca mais o senti.
A. - Só tens de pôr aquele spray.
La Salet - Não. O spray cheira a flores, cheira à recepção. O cheiro a Algarve é mais do que isso. É uma brisa quente que cheira a alfarroba, terra, relva, ria e cloro. E depois é o calor sufocante quando transpões a porta preta, são as abrasadoras ruelas de pescadores, a travessia dos barcos. E é o fim de tarde com o céu azul, cor de rosa, cor de laranja e vermelho.


E é num anoitecer desses com cheiro a after sun e marisco, com uma lágrima que teimava em cair que penso.



"(...)tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
tento esquecer a mágoa
guardar só o que é bom de guardar

Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou"



La Salet