Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




sábado, 26 de abril de 2008

O povo é quem mais ordena



Aos que tinham ideias diferentes.
Aos que queriam falar.
Aos que foram presos.
Aos que morreram a lutar.
Aos que endoideceram.
Aos que que choraram de saudade.
Aos que foram tiranizados.
Aos que desfrutam da liberdade.


Ao meu Pai.



La Salet

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Fui, sou e quero ser!


Fale-nos brevemente de si enquanto mulher casada.


Fui educada para ser uma mulher servil. Felizmente encontrei um homem que não se aproveitou desse facto. Sempre me compreendeu e me deu apoio enquanto mulher.
E não gosto muito de falar do homem e da mulher, dessa forma parecem rivais. Gosto de os ver como ser humano. São diferentes, claro, e completam-se. Há coisas que faço melhor e coisas que o meu marido faz melhor. Eu cozinho, ele detesta cozinhar. Ele faz mais coisas no exterior. Mas se for preciso trocar de papéis claro que o fazemos!
Falando do início, claro que houve muitas vezes em que me calei. Tive de ir conhecendo os seus pontos fracos, vendo quando devia falar, quando devia calar-me. Ele chegava a casa sempre à hora do jantar. Vinha cansado, por vezes irritado. E era eu a ponte entre ele e os meninos. Então o que descobri? Que depois do jantar ficava muito mais calmo. Qualquer problema que tivesse falava-o nessa altura.
Temos de aprender a viver, e para isso não há uma regra. As pessoas são diferentes, as formas de pensar diferentes, as atitudes…
Voltando ao que dizia, sempre quis viver em paz. Acho que de vez em quando é necessário discutir para esclarecer as coisas, mas se o pudermos evitar e chegar ao mesmo destino sem mágoas nem ressentimentos, por que não fazê-lo? O que fazem duas pedras quando chocam? Faísca, sim. Será isso sempre necessário?
Optei então por calar muitas vezes. Ao início foi difícil, não nego. Mas valeu a pena. Não deixei de dizer muitas coisas que queria por ter-me calado em certas alturas. Disse-o mais tarde, quando as coisas já estavam mais calmas e foram aceites de uma forma muito melhor. Assim nos entendemos ao longo destes anos e considero que tenho sido feliz. Temos personalidades diferentes, gostos diferentes. Eu gosto da escrita, ele nem liga ao que escrevo. Ele gosta da matemática, eu apreciava-a quando a ensinava aos meus meninos. No entanto sempre nos entendemos assim.
Ele vai mostrando o que lhe vai na alma à sua maneira, eu vou dizendo e escrevendo. Vou questionando e procurando incessantemente respostas para as minhas perguntas. Sei que nunca vou encontrar todas as que procuro, mas vou sabendo viver com esta dose moderada de ignorância que me vai dando vontade de prosseguir. Espero ter correspondido.



La Salet

terça-feira, 15 de abril de 2008

Queria o Porto de volta

Queria chegar a Campanhã e chatear-me por não ter quem me esperasse. Mandar mensagens insultuosas e ficar com mau feitio. Apanhar o metro e ouvir “Combatentes”. Queria apanhar o frio cortante enquanto me dirigia a ti e poder tocar à campainha. Ver-te com umas calças aos quadradinhos e com aquele maravilhoso ar de sono. Falar-te mal quando me apetecia abraçar-te, deixar que me abraçasses enquanto reclamava por ter vindo só.
“Vou fazer o almoço para nós!”
Mas para quê se perto de ti nem fome tenho? Para quê se não lhe damos o devido valor? Para quê se não vai ser seguido?
E eis que a noite chega. Chega depressa, que o tempo é traiçoeiro. Jantamos e tomamos o nosso banhinho. Chateias-me porque não queres que me arranje. Chateio-me porque tens sempre pressa para sair. (Por que não queres ficar?)
A associação. A bebida, as batatas, os capas negras, a cantoria. A tua voz. Ouço-a e ouvirei vezes sem conta, quando me repetes ao ouvido…






La Salet

Foi como um sopro estranho: aconteceu


Há dias bons e dias maus. Dias em que a felicidade se nos apresenta de manhã com um sorriso de “bom dia” e dias em que a toda a hora a tristeza nos deseja, ainda que ironicamente, uma boa noite.
Nem os bons dias são só positivos, nem os maus dias só negativos. Os bons dias não permitem que nos alegremos com as pequenas coisas dos menos bons; os maus, por sua vez, levam-nos a dar importância às pequenas coisas que abundam no dia-a-dia e, por distracção, insensibilidade ou qualquer outra coisa, tão ao lado nos passam.
E é num dia menos bom que vos falo. Por quê menos bom e não mau? Porque já tive bem piores, que me levaram a poder apreciar um momento de paz na esplanada em que me encontro.
Penso. A vida muda constantemente. É como se um vento soprasse indicando o caminho a seguir. Há precisamente um ano achava que tinha o que precisava para encarar a vida com ligeireza e um sorriso nos lábios: estava a passar, muito provavelmente, a melhor fase da minha vida. Esperava-me uma temporada que humildemente posso apelidar de brilhante. Por muitas expectativas que tivesse em relação à tão ansiada viagem de finalistas, nunca pude imaginar algo assim.
Estarei a ser ridícula ao falar no nascer do dia, já que nunca soube o que isso era. A diante! O dia nascia (pelo menos dentro de mim) resplandecente. Era sempre sinónimo da maior alegria do mundo. Cheirava a mar, a marroquinos (Oh Deus!), a férias. A flores, hambúrgueres e cloro. Nas ruas via alegria e descontracção. As pessoas calçavam chinelos de dedo e sorriam. Comiam chupa-chupas e compravam t-shirts com mensagens divertidas e imagens elucidativas. Negociavam e brincavam. Saboreavam gelados e davam as mãos, cantavam e usavam chapéus.
Todos os dias me sentava a ver o mar. Falávamos sobre nós, os nossos sonhos e projectos. Tirávamos fotos e ríamos: estávamos bem. Fazíamos promessas estúpidas aos olhos de outros, mas com tanto significado que ainda hoje as tenciono cumprir. E da mesma forma que não víamos onde o mar acabava, não víamos o fim de tantas outras coisas. Quando se está bem conhece-se o significado de “fim”?
A noite chegava. Com ela o cheiro da sala de jantar e do gelado de morango. O cheiro do champô e as risadas que vinham de todo o lado. As esperas dos mais ansiosos e o perfume do frasco vermelho. As luzes que nos cegavam e a espuma que nos atingia. As tequilas e os shoarmas. As conversas e o regresso à música, enquanto entoávamos “Love don’t let me go”.
Hoje tudo não passa de recordações, da vontade que o tempo volte para trás, de orações que nos tragam confiança. Que possamos viver tudo de novo e mudar o que não queríamos que tivesse acontecido, o que não faz sentido. Apetece diminuir a distância, abraçar e murmurar. Amar, amar, amar. Mas tudo é estranho.
Como alguém disse, foi como um sopro estranho: aconteceu.



(As pessoas continuam a falar e rir à minha volta. Parecem tão felizes! Também eu o faço. Mas a vontade não é a mesma. Foi o sentido que mudou.)
(Março/2007)
La Salet