sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Cântico negro
(...)
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Deste viver aqui descrito
Hoje, enquanto deambulava por aí, em locais de cheiro a natal e castanhas assadas, entre nuvens de fumo, luzes a piscar e ruído de sinos fui-me questionando acerca do futuro. Ao longo do tempo, dei muitas coisas como incertas e muitas como certas. Actualmente, as que dei como incertas são as mais certas. As que dei como certas são, provavelmente, as mais incertas. Estabeleci sempre prioridades e quando resolvi mudar-lhes a posição hierárquica, reconheço hoje, errei. Andei muitas vezes com um sorriso verdadeiro nos lábios, muitas com uma tromba de meio metro e tantas com um sorriso que tentava aproximar do meu real. Já dei voltas e voltas ao meu pensamento que nunca tem parança, martirizei-me vezes sem conta e finalmente consegui deixar-me disso. Voltei a cansar-me todos os dias para poder dormir em paz. Agucei o sexto sentido e outros que não são para aqui chamados mas que não deixam de ter importância e ganhei consciência do que valho. Sei que todos os dias sou enganada, mas já não me importo com isso. As coisas têm de acontecer e eu não posso ser diferente. Já não me preocupo em abdicar do que quero nem em sacrificar-me por quem não merece. Dou as oportunidades que tenho de dar, quando há uma falha corto o mal pela raiz. Quando há falta de sinceridade e segredos absurdos finjo sempre ignorância, até ao dia em que mostro o que sei. E essa é a última vez que se fala dos assuntos. Parece que vou renascendo em cada erro. E que dentro de mim nasce mais um pedacinho de força bruta e intransigente. Receio até tornar-me estupidamente fria, mas está na altura de olhar para o meu umbigo.
Habituei-me a estar sozinha, cada vez mais tenho consciência disso. E hoje sinto-me bem na minha espécie de solidão. Não sei o que o futuro me trará, mas sei que o enfrentarei mais positivamente. Ajuda-me ter deixado de acreditar na eternidade das coisas, na ilusão da mudança, nos inquebráveis valores morais, no significado dos pequenos actos, na sobrevalorização das boas atitudes, na confiança inabalável, na verdade inquestionável, na mentira sem razão aparente, na veracidade da amizade, na insignificância dos conhecimentos e no amor incondicional. Já nada disto existe para mim. Agora resta-me esperar. Qualquer resolução que tome a partir de hoje, será uma resolução de ano novo. Afinal, já dizem os antigos: ano novo, vida nova!
Ensinamentos
Há dias em que fico mesmo chateada comigo. E há aqueles em que, para além de chateada, fico triste. Tenho uma tremenda falta de paciência para ensinar seja quem for, o que é do conhecimento geral. Mas quando se trata de pessoas muito próximas, a situação é ainda pior. E quanto a esperar pelo que quer que seja? É melhor nem falar disso, ou esta tristeza terá tendência a agravar-se. É lamentável que não me consiga controlar como gostaria. Ainda mais quando há sequelas inerentes à vontade de quem as tem. Já nem percebo se é defeito, feitio ou simplesmente falta de vocação. Sei apenas que me roo de remorsos. E põe tanto em causa...
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Questãozinha
Noutro dia li num blogue que não recordo, que quanto mais interessante uma pessoa é no mundo virtual, menos o é no real. Fiquei a pensar, remeti-me a tantas pessoas que já conheci... E não será mesmo verdade?
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Amigas da onça
Não gosto de hipocrisia. E cada vez mais me apercebo por onde ela anda: em todo o lado. E lembrei-me dela por uma situação que se tem vindo a passar comigo e com quem me é próximo. Uma pessoa cheia de moral (e não é ironia), não entende que nem toda a gente tenha de agir da mesma forma. Não é porque uma pessoa se envolve desta ou daquela forma que está errada. Não é porque uma pessoa se diverte de forma diferente que tem menos valor. Não é porque acontece com X ou Y que tem de ser olhada de forma diferente. Toda a gente tem o direito de fazer o que quer, com quem quer, no sítio que lhe apetece. Nem todos temos de ter namoros longos e supostamente felizes. É que o que irrita no meio disto tudo não é dizerem-nos que estamos erradas, é dizerem-nos que fizemos bem e pensarem o contrário. A amizade não pressupõe isso.
E já nem vou falar na que odeia a outra e fala com ela, na que está a sofrer e age como se fosse a melhor amiga, na que muda de opinião conforme o grupo, na que põe veneno, nem na que diz a toda a gente o que pensa menos à pessoa em causa. Essas virão numa outra altura.
O que parece ser não é o que sou, não*
Quando era mais novinha tinha a mania que era muito independente. Não precisava de ninguém, agia friamente e em situações que me desagradavam punha um ponto final na hora, transformava-me numa pedra e tornava-me intocável. Ainda assim, fui muitas vezes enganada, na minha adolescência inocente. Depois veio uma fase mais frágil, em que ia abrindo os olhos perante o que me rodeava, mas que me era impossível pôr um ponto final no que quer que fosse e quando teve de acontecer soube o que era ficar de rastos. Mas eu era tão forte...
Agora que já me sinto mais consciente, e ainda que precise de crescer muito mais, começo a aprender a lidar com o que se passa. Sei muito mais do que queria e tenho um sexto sentido que me irrita profundamente, já que considero a ignorância um bem precioso. Aprendi a calar-me quase sempre, a evitar pensar, a fingir, fingir, fingir e a agir na altura certa. Para além de o baque ser maior, livro-me de qualquer sentimento de culpa. De dia para dia torno-me mais prática.
*Parte da letra de "Eu sou assim", Luiza Possi
Dedicatória
Apesar de toda a polémica gerada, ainda não me aventurei no Caim. Mas vontade não me falta, sobretudo depois da dedicatória inicial, que considero uma porta aberta para adorar o livro. Que um autor não se vê apenas no que conta, mas também no que é. E aqui, ele é tudo.
A Pilar, como se dissesse água.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Confusão
O tempo passa, o mundo corre, tudo muda. Gingo ao ritmo do que compõem para mim, como parte interveniente sem acção aparente. Perco-me na multidão insignificante que me molda, enquanto me acho na individualidade impensada. Procuro erroneamente a estabilidade enquanto me esquivo nas entrelinhas da vida, na incerteza do futuro, tão estranhamente contrária à certeza saudosa do passado. Questiono, questiono, questiono. E a resposta não surge a não ser tardiamente. É sempre assim nesta realidade de clichés elaborados e destrutivos. Encontro-me na novidade e nela me perco outra vez, para me encontrar numa antiguidade tão familiar e tão minha. E gosto. Oh se gosto! Só não sei realmente o que me faz bem. Não sei o que me fará sorrir na manhã do dia seguinte quando espreitar da janela e me vir no espelho. Nem sei ao certo se me verei ou se verei apenas o reflexo daquilo que fui. Evito o vazio mas caminho para ele a passos largos, cheios de vontade e de uma indeterminação indescritível. Calo-me para os outros e converso comigo em surdina, como se fosse um pecado mortal querer viver, passo a redundância. Digo-me tudo o que ninguém me diz e analiso-me como nenhum outro pode. Vejo-me de dentro para fora, mas não quererei fazê-lo de fora para dentro? Talvez encontrasse uma lógica construtiva...
Where are you going?
Where do you go?
Tell me, where are you going?
Where?
Well, let's go
Dave Matthews Band
Do que já lá vai
Às vezes olho um pouco para trás e questiono-me como poderia ter sido. E falo disso, porque não há necessidade de ignorar o passado que não deixou de ser feliz. Quando o recordo, com a saudade do que ficou naquele espaço e tempo, sabe-me bem saber que tenho uma história para contar. Mesmo que haja histórias que só se contam a quem as merece ouvir.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Só
Quando vês que quase tudo está bem, passas bons momentos e depois maus... Quando já não tens com quem partilhar aquele episódio da noite passada, quando receias que o Natal não seja assim tão bom, quando o medo se apodera de ti e te calas. Aí percebes que estás sozinha.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Avó E.
Sabes avó, fazes hoje anos e uma vez mais é um dia que me deixa feliz e receosa ao mesmo tempo. Há algum tempo que nos vais pregando sustos, que para ti não são tão grandes como para nós. Achas sempre que já estás bem, não nos deixando ajudar-te e até agora tudo tem corrido pelo melhor. Mas essa tua (chamar-lhe-ei) inconsciência é mesmo o que te ajuda sempre a passar por cima. Dizia que este dia me assusta, porque de há uns anos para cá tenho vindo a olhar para ti enquanto jantamos como se aquele momento pudesse não se repetir mais. Eu sei que é um pensamento absurdo numa festa, mas só acontece porque o medo de te perder é grande.
Estiveste sempre presente na minha vida, mesmo que por vezes uma de nós se tenha ausentado. Ensinaste-me o prazer de levar a vida a cantar e a dançar, transmitiste-me o prazer do café, que me davas com um pão para molhar, preparaste-me as gemadas que adorava e ajudaste-me a fazer as panquecas que toda a gente queria. Criaste-me o receio da Maria da Grade quando via apanhar camélias como um desafio apaixonante e ilusões inocentes, fomentaste o meu desejo de ser uma noiva à moda antiga e querer levar flor de laranjeira (mesmo que não faça sentido) e emprestaste-me os teus sapatos de salto alto nas minhas brincadeiras e teatros da escola. Mostraste-me que para a vida temos de escolher um homem que nos faça felizes e que isso pode acontecer mesmo com gostos diferentes, desde que nos respeitemos. Mesmo sem querer, fizeste-me ver que o orgulho é uma característica importante que nos torna pessoas mais fortes e que discutir não é mais do que uma troca de ideias que faz de nós pessoas saudáveis. Estiveste a apoiar-me em tantos momentos importantes e nos que não estiveste, foi porque eu talvez não te tenha dito que o eram.
Quando fiz dezoito anos, falaste comigo no cimo das escadas com orgulho e saudade, numa conversa que será difícil esquecer. Outras vezes falaste comigo e com os outros três enquanto passavas a ferro ou cozinhavas, partilhando histórias que só nos ajudaram a conhecer-te. Com os teus filhos já passaste momentos complicados e é bom de ver a garra de mãe que ainda tens no meio de toda essa fragilidade. Porque mãe que é mãe sofre a dobrar e consegue dobrar o amor a cada dificuldade.
Por isto e por tudo o resto que daria para uma tese, te quero agradecer por tudo o que já tive de ti nestes 21 anos. Que para o ano e no seguinte estejamos cá todos de novo, para te festejar.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
#40
Porque há momentos que mesmo que não se repitam, valem pelo significado que tiveram. Valem porque aconteceram.
a friend is always good to have
but a lover's kiss is better than
angels raining down on me
I dream of you at times
when you're by my side
dream you're not just like
you are
Apertos
Estou cansada da taquicardia absurda, das mãos a suar, dos olhos a lacrimejar, da falta de ar e da insegurança permanente, problema que não resolverei enquanto não houver razão para isso (como eu gostava de não ter razão!).
No entanto, se conseguir pensar a frio, consigo tirar a inteligente conclusão de que errar é humano. Ou o que considero erro não é mais do que uma experiência que nos indica o rumo? Quantas vezes eu já não tive a oportunidade de fazer escolhas, mesmo que fosse pelo pior caminho? Quantas vezes já não pude escolher entre ter e perder, ligar ou desligar, aproveitar ou sofrer, imaginar situações e criar as minhas? Quantas vezes já não participei em jogos de poder? E quantas não me aventurei?
Pois é. É por isso que desejo que essa maturidade se aproprie de mim sem eu dar conta e faça um refresh nesta minha adolescente e insana forma de sentir. É que a forma adulta tem as suas beneces e eu quero-as dentro de mim.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Do fundo do copo
Noutro dia, enquanto lanchava calmamente, começo a ouvir ao balcão uma discussão a surgir. Olhei para ver quem era e logo percebi o motivo: o senhor, já conhecido por beber de mais, deveria estar a ver recusada uma bebida. A partir dali, enfureceu-se, berrou, insultou quem o servia e chegou mesmo a chamar a polícia, cheio de razão. Fico desolada, a ver este tipo de cenas. Sobretudo quando, como neste caso, as personagens principais foram pessoas interessantes, cultas, que vêm de ambientes que nada têm que ver com isto. Arrepia-me pensar que com aquele homem vive uma mulher que nada fez para merecer aquilo, que sempre esteve do lado dele e que só Deus sabe o que passará, porque o que vemos vale pelo que vale, e dentro de sua casa só cada um sabe o que acontece. E custa-me por ela, mas por tantas outras, que neste mundo sofrem na pele os malefícios do alcoolismo. E por tantos outros, que isto do alcoolismo não é somente um problema masculino, embora os atinja mais.
Depois da discussão fiquei calada, como sempre que algo me perturba. A rapariga do bar sentou-se na nossa mesa, pediu desculpa pelo que se passou e quase a medo explicou-nos o porquê de toda aquela intolerância com a embriaguez dos homens mais velhos: o seu próprio pai já tinha passado uma fase assim. E, como ela diz, só quem passa é que realmente sabe o que custa.
Passaram-se dois ou três dias, tempo suficiente para esquecer o assunto. Eis que quando de manhã vou apanhar o autocarro, vou tomar um café apressado na estação e lá está ele de novo. No pouco tempo que lá estive acabou de beber o seu fino e aventurou-se num copo de vinho quase de penalti. Entretanto, uma vez mais, entrou numa discussão colossal com quem o servia, que felizmente teve pulso suficiente para lhe pôr travão.
O que me questiono é, o que é que leva uma pessoa a chegar a este ponto? Que tipo de fragilidade ou deficiência emocional leva alguém a enveredar por este caminho? Eu não sou fundamentalista, e acho que uma bebedeira de vez em quando não faz mal a ninguém. Mas uma pessoa que envereda por este caminho não percebe no que está a cair? Não entende que não se prejudica só a si, mas também quem vive consigo, quem está à sua volta? Ou será o caminho para o alcoolismo, mais do que um caminho de revolta, um caminho de egoísmo? Há muito que procuro resposta a estas questões. Sinceramente, não sei é se a quero ter.
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