Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Do fundo do copo



Noutro dia, enquanto lanchava calmamente, começo a ouvir ao balcão uma discussão a surgir. Olhei para ver quem era e logo percebi o motivo: o senhor, já conhecido por beber de mais, deveria estar a ver recusada uma bebida. A partir dali, enfureceu-se, berrou, insultou quem o servia e chegou mesmo a chamar a polícia, cheio de razão. Fico desolada, a ver este tipo de cenas. Sobretudo quando, como neste caso, as personagens principais foram pessoas interessantes, cultas, que vêm de ambientes que nada têm que ver com isto. Arrepia-me pensar que com aquele homem vive uma mulher que nada fez para merecer aquilo, que sempre esteve do lado dele e que só Deus sabe o que passará, porque o que vemos vale pelo que vale, e dentro de sua casa só cada um sabe o que acontece. E custa-me por ela, mas por tantas outras, que neste mundo sofrem na pele os malefícios do alcoolismo. E por tantos outros, que isto do alcoolismo não é somente um problema masculino, embora os atinja mais.
Depois da discussão fiquei calada, como sempre que algo me perturba. A rapariga do bar sentou-se na nossa mesa, pediu desculpa pelo que se passou e quase a medo explicou-nos o porquê de toda aquela intolerância com a embriaguez dos homens mais velhos: o seu próprio pai já tinha passado uma fase assim. E, como ela diz, só quem passa é que realmente sabe o que custa.
Passaram-se dois ou três dias, tempo suficiente para esquecer o assunto. Eis que quando de manhã vou apanhar o autocarro, vou tomar um café apressado na estação e lá está ele de novo. No pouco tempo que lá estive acabou de beber o seu fino e aventurou-se num copo de vinho quase de penalti. Entretanto, uma vez mais, entrou numa discussão colossal com quem o servia, que felizmente teve pulso suficiente para lhe pôr travão.
O que me questiono é, o que é que leva uma pessoa a chegar a este ponto? Que tipo de fragilidade ou deficiência emocional leva alguém a enveredar por este caminho? Eu não sou fundamentalista, e acho que uma bebedeira de vez em quando não faz mal a ninguém. Mas uma pessoa que envereda por este caminho não percebe no que está a cair? Não entende que não se prejudica só a si, mas também quem vive consigo, quem está à sua volta? Ou será o caminho para o alcoolismo, mais do que um caminho de revolta, um caminho de egoísmo? Há muito que procuro resposta a estas questões. Sinceramente, não sei é se a quero ter.

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