Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




sábado, 5 de dezembro de 2009

Avó E.

Sabes avó, fazes hoje anos e uma vez mais é um dia que me deixa feliz e receosa ao mesmo tempo. Há algum tempo que nos vais pregando sustos, que para ti não são tão grandes como para nós. Achas sempre que já estás bem, não nos deixando ajudar-te e até agora tudo tem corrido pelo melhor. Mas essa tua (chamar-lhe-ei) inconsciência é mesmo o que te ajuda sempre a passar por cima. Dizia que este dia me assusta, porque de há uns anos para cá tenho vindo a olhar para ti enquanto jantamos como se aquele momento pudesse não se repetir mais. Eu sei que é um pensamento absurdo numa festa, mas só acontece porque o medo de te perder é grande.
Estiveste sempre presente na minha vida, mesmo que por vezes uma de nós se tenha ausentado. Ensinaste-me o prazer de levar a vida a cantar e a dançar, transmitiste-me o prazer do café, que me davas com um pão para molhar, preparaste-me as gemadas que adorava e ajudaste-me a fazer as panquecas que toda a gente queria. Criaste-me o receio da Maria da Grade quando via apanhar camélias como um desafio apaixonante e ilusões inocentes, fomentaste o meu desejo de ser uma noiva à moda antiga e querer levar flor de laranjeira (mesmo que não faça sentido) e emprestaste-me os teus sapatos de salto alto nas minhas brincadeiras e teatros da escola. Mostraste-me que para a vida temos de escolher um homem que nos faça felizes e que isso pode acontecer mesmo com gostos diferentes, desde que nos respeitemos. Mesmo sem querer, fizeste-me ver que o orgulho é uma característica importante que nos torna pessoas mais fortes e que discutir não é mais do que uma troca de ideias que faz de nós pessoas saudáveis. Estiveste a apoiar-me em tantos momentos importantes e nos que não estiveste, foi porque eu talvez não te tenha dito que o eram.
Quando fiz dezoito anos, falaste comigo no cimo das escadas com orgulho e saudade, numa conversa que será difícil esquecer. Outras vezes falaste comigo e com os outros três enquanto passavas a ferro ou cozinhavas, partilhando histórias que só nos ajudaram a conhecer-te. Com os teus filhos já passaste momentos complicados e é bom de ver a garra de mãe que ainda tens no meio de toda essa fragilidade. Porque mãe que é mãe sofre a dobrar e consegue dobrar o amor a cada dificuldade.
Por isto e por tudo o resto que daria para uma tese, te quero agradecer por tudo o que já tive de ti nestes 21 anos. Que para o ano e no seguinte estejamos cá todos de novo, para te festejar.

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