Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

De coração


- Meninas têm aqui um raminho para cada uma.
- Obrigada pai!
Sim, foi isto que de manhã se disse cá em casa. É deprimente, é um facto, mas foi o que aconteceu. O pai que nunca teve sensibilidade para perceber que poderíamos estar tristes, este ano achou que devia lembrar-se de nós. A razão que parece justificar tal atitude parece ser mesmo a pior: pena. E continuei a dormir.
- La Salet, toma uma prendinha. Cuidado para não partires.
Deixou o saco vermelho com um cartão a sair em cima da cama, enquanto eu ainda dormitava. Optei por continuar a dormir, o dia não parecia trazer nada de bom. Sonhei e acordei, quis continuar a dormir e sonhar. Uma hora. Duas. Três. Quatro. E abri os olhos, pareceu-me que estava na altura de enfrentar. Peguei no cartãozinho que espreitava do saco e ainda no escuro, com a visão turva li:



Se o amor quiser voltar

Se o amor quiser voltar
Que terei p’ra lhe contar
A tristeza das noites perdidas
Do tempo vivido em silêncio
Qual olhar lhe vai dizer
Que o adeus me faz morrer
E eu morri tantas vezes na vida
Mas se ele insistir
Mas se ele voltar
Aqui estou sempre a esperar…
Vinicius de Moraes


A tarde continuou igual a ela própria: trémula, nostálgica, saudosista e triste. Inexplicavelmente triste. Voltei a pegar no cartãozinho que se mostrava mais completo do que tinha percebido. A mãe tinha escrito o que não conseguia dizer.

Minha filha, meu tesouro,
Gosto de ti sempre e mais.
Minha ametista, meu ouro,
Viver sem ti é de mais.

E como me aliviou. Que felicidade me invadiu! Que tristeza pelas horas perdidas, o choro sufocado, a fala amargurada. E o dia continuou. Ainda que tenha dado para voltar a sorrir havia uma réstia de angústia cá dentro. Ah essa que se tornou na minha maior aliada!
Até que quando a noite já ia longa e se tratava de arrumar os enfeites temáticos do bar se dirigem às meninas com “o” coração para recordar. Obrigada K. Obrigada pai. Obrigada mãe. De coração.
La Salet

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