Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Eu só queria



Eu só queria ser dona do tempo obrigando-o a passar quando não estás cá, impedindo-o de avançar quando és meu. Queria fazer do mundo um pequeno paraíso onde ninguém se intrometesse na vida de ninguém e onde todos nos completássemos sem prejuízo. Só queria que não precisássemos de chocolate ou comprimidos que nos aumentassem o nível de serotonina. Que os dias de sol nos aquecessem sempre e nos proporcionassem eternamente um ar saudável, que os de chuva tivessem sempre um beijo molhado e uma toalha que nos secasse, que os de trovoada tivessem um expectante abraço acolhedor, que os de nevoeiro não me impedissem de te ver, que os de neve tivessem uma lareira e os de granizo não tivessem mais do que cristais a embelezar a insignificância de um dia normal.
Queria que todos os jantares fossem barulhentos, que toda a gente tivesse alguém para passear de mão dada, que a vida fosse uma permanente película de um filme europeu, poder passar ao take seguinte só porque sim, desligar as câmaras e recolher-me ao sossego do lar. Só queria ter todos os dias o beijo lambuzado de uma criança, a leveza de um adolescente, a rotina de um adulto e a sabedoria de um velho. Queria passear na praia abandonada, recomeçar ao pé do mar, descontrair entre flores silvestres e reflectir entre livros poeirentos com páginas amareladas e já descoladas.
Queria todos os dias olhar pela janela aos quadradinhos e não querer sair, olhar para o espelho e ver o que sou, ver fotografias e poder regressar àquele momento. Queria dançar pela vida fora, numa incessante fuga do pano que se fecha, chutar recordações em direcção à baliza onde ficam guardadas ou criar uma banda sonora que reflectisse cada vivência e fosse intemporal. Só queria todos os dias merecer viver e ter consciência disso, não conhecer a insegurança e não saber o que significa solidão, aprender a perdoar quem merece e saber fazer essa distinção.
Queria que me ensinasses o caminho da felicidade, que o preenchêssemos de surpresas, que criássemos novos seres de que nos orgulhássemos e fossem ainda melhores do que nós, queria que envelhecêssemos lado a lado sem espinhos inultrapassáveis, sem rancores adormecidos, mágoas que se levantassem ou pensamentos que ofuscassem o olhar. Queria escrever história numa caligrafia de escola primária, que fizesses as ilustrações e no epílogo pudéssemos escrever que a missão estava cumprida.

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