Nem sempre sou sensível ao ar triste das crianças, que tantas vezes sei ser apenas uma arma para obterem o que querem. Mas quando se trata mesmo de tristeza, daquela neblina cintilante que lhes cobre o olhar e o empurra para o chão, aí fico doente. Goste mais ou menos dela, seja conhecida ou desconhecida.
Há algumas semanas, naquele programa de crianças de domingo à noite da tvi, houve um menino que me partiu o coração. Na primeira gala disse que o pai estava no hospital e começou a chorar por causa disso, o que pelos vistos comoveu o país, que votou para que atingisse o segundo lugar. Na gala seguinte, já ninguém se lembrava que o pai estava no hospital e que ele estava triste por isso, porque nos comovemos muito facilmente mas temos memória curta, e o menino saiu. Passou uma semana em que ele se sentiu, com toda a certeza, feliz com o seu talento e eis que de repente se vê em queda livre. Claro que dói a qualquer um, ainda para mais a uma criança, que não conhece tão bem a derrota como um adulto. E foi vê-lo com aquela sombra de tristeza a trespassar-lhe a cara, quando percebeu que ele e outra tinham saído e não ter, de todos aqueles companheiros de cantoria uma palavra, uma carícia, um abraço. Os apresentadores viram que a outra menina chorava e socorreram-na, com abraços amigos e palavras de ânimo. Não foram capazes de virar a atenção para o menino que estava a um passo, calado e com o choro sufocado. Canonizaram toda a atenção para quem mostrava o que sentia. Isto dói-me, sim. Não só por ser uma criança numa situação especial, como por saber o que tantas vezes custa esconder o que se sente e, por isso, não receber uma palavra amiga.
Ontem à noite estava sozinha em casa e não tinha nada para fazer. Lá me sentei a ver uma novela de que toda a gente me fala. Agora devo estar destinada a isto: lá estava novamente uma criança a querer entrar num qualquer restaurante que tinha aberto recentemente, e cujo dono ele conhecia, e a não poder porque o dono o ignorou. E foi ver o ar derrotado daquele pequeno actor moreninho a mexer comigo até às lágrimas, que ontem as hormonas também ajudavam a saltar.
Vejo muito pouca televisão, mas parece que a solução é mesmo deixar de ver. Mexe de mais comigo ver crianças tristes, talvez porque já imagino como seria se fossem meus filhos. E é bom que isso demore, porque sei se isso lhes acontecer serei uma mãe doente.

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