Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 26 de maio de 2010

O dia D



Eu tive uma infância feliz. Brinquei com bonecas. Corri muito, andei de bicicleta, caí, esmurrei os joelhos e sujei-me. Dei cambalhotas na relva, apanhei gafanhotos, joaninhas e caracóis, saltei à corda, joguei à macaca, ao macaquinho de chinês, menina que está no meio e lencinho. Apanhei amoras e rosas silvestres, piquei os dedos e arranhei as pernas, tomei banho no rio às escondidas, apanhei beatas do chão e fumei-as, costurei vestidos para as barbies e bolsas para mim. As brincadeiras foram mudando ao longo dos anos, mas houve uma que se manteve sempre. A dos namorados. Sempre tive namorados e filhos imaginários. Por vezes, materializavam-se em vassouras, com quem passeava, dançava ou dava beijos na boca. No verão, fazia vestidos de noiva ao corpo e desfilava.
O sonho de casar foi um daqueles que levei para a pré-adolescência. E para a adolescência. Até para a idade adulta. E que se desvaneceu, talvez porque me tornei mais realista.
O casamento é um passo que não faz sentido com qualquer namorado. Só faz sentido com alguém que ocupa um lugar cimeiro e único no coração. Com alguém que temos a certeza que é para a vida, mesmo que anos mais tarde percebamos que não é bem assim. De outra forma não faz sentido.
Depois, põe-se o caso de até acharmos que temos "A" pessoa e não temos o resto. Quando sabemos que nunca fomos genuinamente felizes nos dias que tinham tudo para que fossemos, achamos que talvez não valha a pena arriscar. Quando achamos que a pessoa é a que queremos para a vida, mas não nos pode proporcionar um dia de casamento único, verdadeiramente nosso, recheado de surpresas e lágrimas de alegria, sabemos que não queremos forçar o dia único. Ou quando a ouvimos uma vez na vida falar desse dia  com receio. Esse receio pode acabar com o sonho de uma vida.
Hoje sei que não quero casar. Que para isso, teriam de ser movidos mundos e fundos. E que, ainda assim, eu teria tendência a ser racional. Não por birra ou por orgulho. Por tudo o que se passou e por saber que simplesmente já não faz sentido. Por saber ainda que teria dúvidas e que, como já disse, esse é um dia de certezas. A felicidade pode fazer-se mudando sonhos. E eu não quero arriscar falhar mais um.

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