Sim, Lorcas é tudo verdade. Durante muitos anos foi fácil sentir-me feliz, mesmo quando questões sérias me atormentavam. Agora tudo mudou, sem que te apercebesses. Eu sei que andaste absorvido pela tua vida, como já tantas vezes andei. Quando há muito que fazer e em que pensar temos um certa habilidade para descuidarmos quem amamos.
Eu sei que nem sequer perguntaste, mas já que estamos aqui os dois sentados, aproveito para partilhar um pouco contigo. Afinal sempre soubeste tão bem ouvir-me. É pena que tantas vezes tenhas desaparecido logo a seguir, mas não deixaste de me ajudar com uma simples conversa. E acho que já to disse, as pessoas que estiveram nos momentos importantes não se esquecem nunca, mesmo que um dia pertençam apenas ao passado. Ali, naquela canto da eternidade, elas permanecem imutáveis e embalsamadas no patamar que construiram.
Já sabes o básico, sei que tens tido notícias. Tenho vindo a pensar que Deus afinal faz mesmo justiça, não é? A minha irmã diz que justiça não é isto, que assim sofrem sempre os mesmos. Eu cá acredito que pode ser. Afinal para quem gosta tanto de viver, ver a vida a escapar-lhe entre os dedos desta forma, se não é castigo é o quê? Mas as notícias recentes dizem que a situação está realmente má. Parece que está a alastrar. E eu que não consigo ter dó. Será que me consegues entender ou vais apenas julgar-me? Falo-te de coração aberto, sabes bem que só tu e a Gi me ouvem desta forma tão grotesca e tão pouco humana.
Quanto à outra preocupação (eu sempre disse que os homens só dão preocupações, lembras-te?), tudo continua igual. Ou pior, sei lá eu. Para mim é sempre pior, que eu nunca tive grande habilidade para me habituar ao que quer que fosse. Sabes bem que uma mágoa pequena que nasça no meu peito e vá sendo alimentada com pequenos actos tão semelhantes entre si, tem tendência a transformar-me numa bomba prestes a explodir, capaz de lançar os maiores impropérios que se têm ouvido.
E então, fala-me de ti. É que eu parece que engoli uma grafonola. Quando entro no modo on é complicado desligarem-me o botão. E pronto, já que esta conversa nos levou duas vezes ao mesmo sítio (esse paraíso de que falam), não penses que não me sinto mal por pensar o que penso. Martirizo-me todos os dias. Eu que me considerava uma pessoa de valores, parece que os perdi todos quando decidi mostrar-te há três anos a raiva que ia aqui dentro. No dia em que pus a cassete a tocar, ela não parou mais. Poderias, sem eu ver, tirar-me a fita como quem não quer a coisa? Como eu dizia, também eu queria ir lá ter. Não que quisesse a sua companhia, dizem que aquilo é grande. Mas parece-me que lá tudo funcionaria melhor. Isto aqui não anda a correr nada bem, os alertas não são mais do que casualidades, uma simples frase transforma-se num impropério, um simples carinho toma vida própria de diabo e ergue o tridente, uma questão é quase sempre vista como impertinente e inoportuna. Já não sou vista com o respeito de outrora, com a estima que cultivei, com a energia que perdi, nem sequer com a vontade que parece que fiz desvanecer-se. Já pouco faz sentido e a solidão começa a assustar-me mais de dia para dia. Não é porque quero, bem sabes. E não gosto de desculpar-me com os outros, mas não é culpa minha.
Vá Lorcas, acabaram-se as lamentações. Fala-me mesmo de ti, quero saber o que corre nessas veias, o que vai nessa alma. Mas diz-me só, antes disso... Ainda me sentes?
Num laivo de dor dilacerante tentei chegar a ti, numa noite pouco estrelada com raios de luz a trespassar as nuvens. Se consegui ou não, só Abril dirá.


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