(Almada Negreiros)
Há aquelas noites em que temos imensos convites e não há vontade de aceitar nenhum. Foi o que aconteceu ontem. Entre aniversários, queima e festas temáticas lá tive de optar. Aniversário. Pouca vontade. Muito pouca, aliás. Mas não poderia faltar, não seria perdoada. E não me sentiria bem se não fosse. Entre umas febras no pão, minis e alguns doces lá passou uma parte da noite. E seguimos para o bar habitual.
Assim que o ponteiro se aproximou das duas, baixaram as luzes. O ruído diminuía e lá fomos saindo. Éramos seis a querer estar juntos. E a não querer ir para longe. "Por que não vamos para o coreto?" Fomos.
Arranjámos mantas ao xadrez, vodka preta, vinho tinto, cigarros, batatas fritas e livros. Houve espaço para o consultório sentimental habitual, para a revolução, ideologias, sonhos, distribuição de simbólicas rosas vermelhas, mãos que se queriam, olhares que se cruzavam, palavras que se apoiavam. Parecia uma nova geração d'Orpheu. Estiveram poetas franceses, Mário de Sá Carneiro, Nuno Júdice e, em pensamentos e citação David Mourão-Ferreira. E Florbela Espanca. Essa foi a grande presença. A que nos fez sentir, recitando.
Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Florbela Espanca

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