Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




terça-feira, 28 de abril de 2009

Lua Azul


Numa ida clandestina a uma farmácia, o farmacêutico de serviço ofereceu-me uma caneta, que me perguntaram o que me lembrava. Ora, a simples esferográfica era, para os homens, isso mesmo. A nós, mulheres, lembrava um bocadinho de tudo. Víamos nela uma ampulheta e, consequentemente, uma mulher, uma seringa, um termómetro, uma cápsula, um cenário de fecundação e um joystick. Abandonei a forma e olhei para a cor: turquesa. Tal qual aquele colar de turquesas do Sri Lanka que eu tanto admirava quando era pequena. Fiquei feliz com aquele azul.
Um destes dias disseram-me que eu parecia o azul. Não sei se o azul caneta, aquele que me fez feliz, mas azul. Quando penso numa cor, imediatamente me remeto às aulas de educação visual em que as dávamos, tendo sempre o azul ciano à mão, já que era uma das cores primárias. Dividíamo-las em frias ou quentes e falávamos do seu significado. Não sei se sou primária, mas sei que se me juntar a outros como eu poderemos ser muito mais. E que conseguiremos ter a alegria de todas as cores do arco-íris. Sou fria? Quanto baste. Para quem merece. Quando merece.
Depois das aulas de educação visual lembro-me inevitavelmente do céu. Vemo-lo azul, mas não é azul. A sua cor depende da forma como a luz se espalha pela atmosfera. Também quem me vê azul, sabe que sê-lo depende da forma como a luz humana incide sobre mim. O segredo está, também, nas moléculas que andam por aí em suspensão e nas quais esbarro. A seguir vem o mar. O mar que vemos tem, ao longe, a minha cor. Quando nos aproximamos podemos ver que tem várias tonalidades e uma corrente que nem sempre é conivente com a pacificidade que imaginamos. Se lá entrarmos num dia em que está calmo, é fácil ver à transparência tudo o que faz parte dele. Se for num dia de rebelião é triste ver a facilidade com que se entra e a dificuldade com que se sai. E tantas vezes sem que o sangue corra.
Na natureza vamos tendo muito mais exemplos do que é o cárdeo. Há o mirtilo azul-violeta de que uns gostam e outros nem tanto porque lhes azeda a boca. Há os miosótis que se impõem na sua insignificância. Há a baleia azul que, na verdade, nem azul é. Há a safira que tanto brilha e ofusca tanta gente. O lápis lazúli que usam por superstição ou porque é um adorno que vale a pena mostrar. Há o azul dos pombos que vemos na rua e que por mais que os queiramos apanhar, acabam sempre por fugir. O azul do petróleo que usamos até à exaustão. O azul eléctrico que anda por aí a irritar-nos com a agressividade da sua tonalidade. O azul-bebé da ternura instigada pelo relógio biológico. O azul claro das sorridentes manhãs de primavera em que até os pássaros cantam o hino da alegria. O azul-marinho dos sonhos felizes.
Num dos meus sonhos azul-marinho dançava-se, lembrando Johann Strauss e envergando um longo vestido, o “An der schönen blauen Donau”, por nós conhecido como o “Danúbio azul”. A sala ostentava orquídeas marfim e vermelhas e no braçado vinham tulipas brancas. Mas isso só seria possível no castelo que fantasio, com os jardins de um verde tropical que eu criei e que mais ninguém vê. Numa noite de Lua Azul, entenda-se a improbabilidade.



Blue moon, you knew just what I was there for
You heard me sayin' a prayer for
Someone I really could care for

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