Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Fado à média luz



Ainda ouço a chuva no telhado naquela manhã e todas as coisas que tinha para dizer. Toda a tristeza que me dilacerava e ia arruinando a réstia de esperança que a tua boca tentava impor. A cama estava desfeita e fazê-la era um passo em direcção ao fim que não queríamos, mesmo sabendo que seria inevitável.
Pegaste na mala orgulhosa e saíste quase sem olhar para trás, abandonando o vazio que sentia naquele quarto de recordações em que não quero voltar a viver à média luz. Se o voltarmos a habitar será numa noite escura e fria em que só teremos olfacto e tacto. Quero inspirar-te e imaginar-te. Quero sentir-te, mas por favor não fales. Quero que me abraces e te lembres que o tempo passou, mas que nada mudou. Eu estou aqui e tu estás comigo.
Agora vou sair desta outra casa. A cidade é a mesma e a cor do céu é espelho de interior. Lá fora começam os primeiros sinais da bulia normal desta pouco habitual sexta-feira. Ouço as caixas a bater, a água a escorrer, o primeiro autocarro da manhã e os passos da juíza. A última cantoria dos resistentes de ontem ainda se ouve lá à frente. Aqui dentro só ouço a música do diário da manhã que me vai acordando para a realidade das borboletas no estômago. O pequeno-almoço não passa e tudo me cai das mãos porque os braços não se fecham. Bato a porta com cuidado e enfrento a primeira luminosidade natural que me arrepia, cumprimento o senhor do café que se questiona por que o tomo tão cedo e parto rumo ao incerto.
Chego ao calor do sítio combinado e não sei se o sinto pelo que já andei, por lá ter entrado ou porque ele vem de ti. Para mim, apenas trauteio um fado.


"Na tua boca o tempo voltou atrás
E se fui louca
Essa loucura
Essa loucura foi paz."

Ana Moura



La Salet

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