
"Quase morri dentro de mim."
Tiraram-me a venda dos olhos. Ai esta luz intensa que me ofusca, esta luz que contrasta com o luto cá de dentro! E eles gritam lá ao fundo, as portas batem, a torneira pinga, o colchão não pára de ranger, ela não pára de gemer. A cabeça que dói como se um berbequim a furasse e tivesse de suportar o triplo sofrimento.
O ar está imundo. Consigo inspirar a nostalgia, a fraqueza e a frustração. E se me concentrar posso sentir que lá longe também se respira revolta. Já não estou só!
Volta esta dor lancinante por cima do olho, que não é maior do que a que se apoderou do que está mais abaixo. Dói por ser física e por ser nova, opondo-se à habitué. Não sei se é da claridade ou da clarividência, do som ou do ruído, do ar carregado ou da falta dele. Não consigo respirar. E esforço.
(Mais uma gota. Duas. Três.)
Vem à memória o filme dos últimos meses, em que todos falam sem que ninguém se ouça, aquele em que grito para que se ouça longe em vez de sussurrar porque a distância não existe. Já se diz que qualquer coisa não está bem e as desculpas sucedem-se porque a razão está demasiado intrínseca para que se queira conhecer e explorar, partilhar e resolver. É no fundo que se encontram as respostas ainda que o medo do abismo não permita descer. Vertigem. Tudo anda à roda neste imperfeito ciclo vicioso feito por personagens irrealmente reais carregadas de histórias mal resolvidas e esperanças quase vãs.
Já consigo reabrir os olhos e ver o nada, que são estas paredes negras porque está escuro, brancas pela luz que me encandeia ou esverdeadas porque foi a cor que lhe deram. Volta o sentimento de livre aprisionamento, invade-me a calma na sua mais hipócrita faceta, a queimadura ardente, a secura arrepiante, a tremura incontrolável, (plim, plim, plim), a loucura inconstante, o calor acrescido e até o frio intermitente, o sorriso gelado, o olhar ausente, a dormência dos membros, o suor húmido e inexplicavelmente explicado, a agonia estonteante.
Calem o colchão, abafem os gemidos aqui ao lado, cortem a água, fechem de vez as portas. Acabem com as conversas de fundo de corredor e com o silêncio transcendentalmente utópico que me enlouquece. Dêem-me só mais um pouco daquele copo. E tirem-me de mim.
La Salet

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