Ainda ontem te vi e podia jurar que o nosso olhar não se cruza há uma eternidade. Já percorreste tanto, já vivemos tanta coisa, já foram tantas as palavras que trocámos, as histórias que partilhámos, os pensamentos que nos invadiram. E só passou um dia. É por isto que custa, por tanto acontecer e o maldito relógio instituído vá-se lá saber por quem não andar à velocidade que queremos.
Mesmo depois de tudo isto, é bom ver que já não mergulho no refúgio escuro a que me habituei, conseguindo canalizar as energias para ti. És tu o merecedor delas, para quê dedicar-me ao vazio? Quero dar sentido à vida, recheando-a de ti, temperando-a contigo e servindo-a, no fim, somente a nós. Num jantar à luz das velas daqueles filmes lamechas, mas à nossa maneira. Os clichés nunca foram o nosso forte.
E dentro de dias cá estarei, já sem avental e com aquele ar imaculado com que gosto que me vejas para que te apaixones mais a cada momento e percebas o porquê de me escolheres a mim, de braços abertos à tua espera. Aparecerei numa nuvem de felicidade, com os olhos brilhantes a que te habituei, os diálogos que criámos inocentemente, a doçura que só conheço contigo e numa entrega total que só quem ama conhece. Vou apertar-te contra mim para que os nossos corações se cumprimentem, segredar-te tudo aquilo que já sabes mas que não é de mais dizer, acompanhar-te em todos os momentos importantes e sentar-me ao teu lado para que as nossas pernas se toquem quase sem querer, enquanto algo nos salta do peito e teima em fugir por todos os poros.
Vamos ao cinema ver os piores filmes do mundo, só pelo prazer de o fazermos os dois, revisitar a praia do amor - onde sempre temos de nos reencontrar-, rever os amigos que nos fazem sorrir, passar serões debaixo de um cobertor, sentindo que o nosso mundo está naquele lugar, rir até que nos doa a barriga e corar até esconder a cara debaixo da almofada. Nessa altura vamos estar completos. E se na minha rua as luzes de Natal já estão acesas, se nas lojas já se ouvem cânticos natalícios, o frio já não permite ter as janelas abertas o dia todo, de manhã já vemos fumo a sair da boca, as pessoas já andam de novo felizes e generosas, parece que estás quase cá. Até lá encho-te de palavras e gestos, que é tudo o que te posso dar.


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