Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




terça-feira, 31 de maio de 2011

Amor quatro estações



De repente a noite tornou-se pesada. As certezas irrefutáveis de criança foram para longe, para bem perto da inocência. E por lá ficaram as duas de mãos dadas. Só elas sabem até quando.
Agora que tenho a certeza que o mundo é tão cru como nunca o quis ver, que as pessoas são tão irracionais e sexuais como vejo na televisão e no cinema, que o perigo anda à espreita quando menos se espera, finalmente consigo encarar os meus fantasmas.
Nós temos a capacidade de nos apaixonarmos várias vezes na vida. E temos a capacidade de amar, que é bem diferente de estar apaixonado. Amar dura mais do que aquela meia dúzia de meses. Amar é a segurança da paixão. O acordar com a certeza de que mesmo que o mundo nos caia em cima tudo ficará bem, a certeza de que o futuro será sempre melhor do que o presente, de que o passado está sempre recheado de boas recordações, a certeza de que os momentos a dois nos preencherão sempre a alma e irradiarão alegria. Até ao dia em que se faz uma pausa no amor. Nesse dia, as certezas de anos desaparecem em horas, as noites de sono são mais curtas e de menor qualidade, as lágrimas que não sabíamos que tínhamos resolvem afogar-nos, a raiva instala-se e, de repente, tudo mudou.
Olhamos para o mundo e tudo nos parece diferente. Os casais apaixonados enjoam-nos quando não os invejamos e os solteiros são a nossa maior diversão. A sensualidade está à flor da pele e em pouco tempo estamos enrolados com alguém no bar mais próximo, a ter conversas intermináveis à beira rio, ou em casa de alguém que nem conhecemos. Num instante passámos do conforto da eternidade para a fugacidade das guerras de almofadas, dos mergulhos à noite e das pedrinhas a bater na janela. E tudo nos faz esquecer aquele amor passado que nos partiu o coração em tantos pedacinhos que nos obrigou a dar um a cada pessoa que se cruza connosco. Até ao dia em que damos o último. E aí, a recordação apodera-se de nós. Vem a saudade do conforto do amor, da sensação de peito cheio, dos pés entrelaçados em noites frias, de dormir em conchinha e acordar num mar de beijos. De mandar mensagens só porque sim, sem ter de fazer o jogo da espera, de ir ao cinema porque sabe bem e fazer jantares saborosos só pelo prazer de serem degustados a dois.
Em pouco tempo os nossos dedos já enviaram a mensagem sem a nossa permissão, as conversas já não trazem a raiva que foi deixada em vários copos e corpos, a poesia já não parece tão certa, o prazer não parece tão fugaz e o amor já não parece fazer parte do passado. Em pouco tempo os dias voltam a ter vinte e quatro horas em vez de trinta e seis, a tempestade passa e quando volta já nós estamos debaixo de uma manta ao xadrez. Em pouco tempo o vento amaina e já é outra vez Verão, já podemos passear na praia de mãos dadas sem medo que a estação acabe e não haja outra igual.

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