Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A beleza da banalidade



Dos dias normais, guardo a recordação dos jantares a três, do nestum com leite, das padinhas com nutella, do arroz de cabidela a quatro, das conversas banais e despretensiosas, dos episódios escolares de pais e filhas, numa realidade que era tão próxima. Relembro as conversas que eram só de mulheres, as primeiras confissões amorosas, as caixas de bombons compradas em segredo, os intervalos da tarde passados ao ar livre, a hora de ir embora no carro que agora é meu e quase esqueceu que um dia já foi de outra maneira.
Lembro os almoços de família, quando havia vontade de preservar a harmonia. A sopa quente com chouriça, a carne assada com castanhas, que nunca mais terá o mesmo sabor. O espera maridos e o bolo-rei de frutos secos, a cadeira de flores em frente à televisão, a reunião de mulheres na cozinha e o barulho da louça suja. As corridas de crianças no corredor e o gatinhar dos bebés, as cerejas a fazer de brincos, a caixa de rebuçados de morango guardada no quarto da avó, as tardes de cantorias ao som do piano, os fantasmas que apareciam enquanto almoçávamos, os fins de tarde dos Simpsons que nem entendíamos e as sandes de carne assada com maionese.
No fundo, tenho pena que a morte exista, que as pessoas se transformem, que os desentendimentos aconteçam, que os valores não sejam imutáveis, que os divórcios sejam inevitáveis, que as traições aconteçam dentro de portas e que o abandono seja o pão nosso de cada dia. Lamento que a vida se transforme quando é para pior e que os dias normais deixem de o ser, também porque a inocência ficou perdida numa casa onde o sol raiava e os dias eram alegres. Repletos de cores e cheiros. Hoje quase esquecidos no tempo.

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