Consegui acordar neste dia que cheirou a Primavera, logo pelas oito da manhã, sem pensar no passado. Mas esse pedaço de história entrou-me pela janela do carro sem pedir licença. Já não dói, como todos os anos até aqui. No entanto, ainda me faz recear.
Penso na vida que levei até aqui e fico abismada com a inutilidade de tantos dias passados. Recordo outros e espanto-me com a ingenuidade de tantos outros vividos na obscuridade. Relembro que há três anos fiquei finalmente só, quando te vi abandonar o ninho desfeito com uma mala às costas. Não olhaste para trás, nem sequer hesitaste. Saiste, bateste a porta e deixaste-me desfeita. Demorei a recompor-me, sempre o soube. E os danos continuam aqui, constato-o à distância. Cada vez mais vivo do momento e empurrei para o canto o futuro que não sei se terei. A partir daí, todos os dias me dividi entre a doçura e o medo. A partir daí, mesmo tendo tido dias cheios, quase todos se tornaram de niguém. Quase todos se tornaram de coisa nenhuma.

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