Aqui me confesso, eu que um dia mudei de casa e de vida e renasci Merlia.




quarta-feira, 2 de junho de 2010

Chaga


Eu, como tanta gente, tenho o hábito de associar músicas a momentos. Há aquelas músicas que ouvimos em momentos felizes e que adoramos, ouvindo-as posteriormente vezes sem conta e há aquelas de que até nem gostamos muito mas que nos lembram esses bons momentos e que mais tarde, quase sem querer, voltamos a ouvir e a sorrir. Sabe bem relembrar cada detalhe ao longo de cada palavra.
Depois há as que marcam momentos maus. E se são más, não há por que voltar a ouvir. Apenas rezar para que não a toquem no sítio menos esperado. O problema é quando são boas. Quando são tão boas que não as deixamos de ouvir na agonia e depois não nos lembram mais nada. Ou quando simplesmente, numa noite que poderia ter sido boa mas foi triste, as ouvimos aos berros num bar, nos espetam uma facada a cada palavra proferida e nos arrepiam a cada batida. Quando temos a certeza de que aquela letra podia ter sido escrita por nós, com aquelas exactas palavras.
É o que me acontece com esta. Sempre a adorei. Há anos que me dói ouvi-la. Assim que começa a minha cabeça é invadida por flashbacks. Vejo um sítio escuro em que as luzes acendem e apagam enquanto ela toca, o coração que não sossega, a cabeça que não pára, as lágrimas que querem saltar. É a dor lancinante que não quer sair, a dor de quem não ficar. São conversas obrigatórias na associação, conversas derradeiras na praça, um adeus que não se quer dizer, um adeus que tem de ser. E a música a ecoar, a ecoar, a ecoar. São cigarros fumados no desespero, a confusão da incerteza, o medo da quase certeza, a raiva do despeito, o desespero da troca e o desprazer do descontententamento. São as vivências perdidas, o esquecimento que não se almeja e o esforço em vão. É o orgulho ferido e a incapacidade de seguir em frente.
Quando ouço esta música há lembranças que não consigo evitar, uma agonia a que ainda não sei fugir e um receio que temo não perder. Há uma corda que me ata o estômago e alguém que me arranca a pele. Devagar. Muito devagar.


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