Há semanas que me lembro do quão importante é, para nós, este dia. E embora nunca mais tenhamos estado juntos nesta data, desde que tudo aconteceu, não deixa de ser um dia de mel. Das mais sentidas recordações da nossa história.
Ontem à noite saí do quentinho do lar com o relógio a aproximar-se das onze. O céu tirou-me fotografias. A chuva abençoou o percurso. O granizo não se fez esperar e brindou-me com a sua presença. Na minha cabeça pairavas tu. E nós. E a saudade do calor do teu abraço, dos lençóis brancos engelhados, dos cabelos emaranhados, do acordar tardio e do peito a transbordar de felicidade. Voltei a sentir aquela primeira certeza de que, para nós, sempre era o evidente.
A rádio presenteou-me com uma das nossas músicas dos momentos mais complicados. Na altura em que os nossos encontros eram demasiado espaçados, tinham uma intensidade que gosto de recordar mas não quero voltar a sentir. Eram bons como nenhuns outros. Maus como só eles. Todos os minutos eram sentidos e contados. As horas que dormíamos eram sempre de mais. Os beijos sucediam-se mas nunca colmatavam a falha dos que ficavam por dar. As mãos grudavam até o segurança do aeroporto as separar. Os meus olhos não desgrudavam de ti até desapareceres nas nuvens. E hoje, aquela voz relembrou-me tudo isso. Abri os olhos e adormeci.
Parei a meio, numa bomba de gasolina. Ecoava aquela voz, que me mostraste como alento, por saberes que nós podemos ter um final feliz. Ouvi-a a dizer que o príncipe encantado volta sempre para mim e tive a certeza de que tu soubeste que eu ia parar àquela hora, naquele sítio e que aquilo não foi senão um regresso ao passado dos discos pedidos.
Meti-me no carro e segui viagem. Perto de Arcozelo, o céu iluminava-se com fogo de artifício. Desta vez preparaste tudo ao pormenor. Admirei-o devagar, como admiro o da nossa praia. E, ao aproximar-me dele, vi a letras grandes de romaria que ali se festejava a Nossa Senhora dos Remédios. A nossa senhora dos remédios.
Não podia ter tido melhor entrada no dia de hoje. Encheste-me a noite de cor. Moveste a natureza para me lembrar que nós escrevemos, dia após dia, a melhor história de que há memória. Pouco depois da meia noite, ainda não satisfeito, traduziste em palavras o teu amor incondicional.

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